Visto de fora

Burocratas e plutocratas

por Paul Krugman, Publicado em 02 de Abril de 2010   
Na vida económica americana vive-se uma guerra entre plutocratas e burocratas, isto é, entre os que querem a liberdade de pôr a economia em risco e os que querem pôr travões aos bancos
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A reforma da saúde já está consagrada na lei. Próximo passo: reforma financeira. Mas será que vai acontecer? A Casa Branca está optimista porque acredita que os republicanos não vão querer ser considerados aliados de Wall Street. Não tenho assim tanta certeza. A questão fulcral está em saber quantos senadores acreditam que conseguem convencer alguém ao declararem que a guerra significa a paz, que a escravatura é liberdade e que regulamentar os grandes bancos é fazer-lhes um grande favor.

Alguns antecedentes: em tempos tivemos um sistema funcional para evitar crises financeiras, que assentava numa combinação de garantias governamentais e regulamentação. Por um lado, os depósitos bancários estavam garantidos, o que evitava a repetição da grande corrida aos bancos que constitui a causa central da Grande Depressão. Por outro, os bancos estavam sujeitos a uma rigorosa regulamentação, de maneira a não se apoiarem nas garantias governamentais para correr riscos excessivos.

Porém, a partir de 1980, ou por aí, esse sistema começou a ser desmembrado, em parte por causa da desregulamentação dos bancos, mas sobretudo por causa do aumento das "finanças na sombra", ou seja, instituições e práticas (como financiar investimentos a longo prazo com empréstimos overnight) que vieram recriar os riscos da actividade bancária à antiga, mas que não se encontram cobertas nem por garantias nem por regulamentação. O resultado foi que, em 2007, o sistema financeiro já estava tão vulnerável a crises graves como o de 1930. E a crise aconteceu.

E agora? Na prática já foram reinstituídas garantias ao estilo das do New Deal. Quando o sistema financeiro começou a soçobrar, mergulhando em crise, o governo avançou para salvar empresas financeiras em apuros, de maneira a evitar um colapso total. E devemos ter presente que as maiores injecções salvadoras tiveram lugar sob uma administração republicana conservadora, que sempre se reclamou defensora irredutível do mercado livre. Há todas as razões e mais alguma para acreditar que essa abordagem será a regra daqui em diante: sempre que o calor aperte, independentemente de quem esteja no poder, o sector financeiro será salvo. Com efeito, as dívidas dos bancos-sombra, tal como os depósitos dos bancos convencionais, são agora garantidas pelo governo.

A única questão é saber se o sector financeiro vai pagar um preço por esse privilégio e se Wall Street ficará obrigada a comportar-se de maneira responsável em troca do apoio governamental. E quem poderia levar isso a mal?

Ora bem, e que tal John Boehner, o líder da minoria na Câmara dos Representantes? Recentemente, Boehner deu uma palestra aos banqueiros, incentivando-os a obstruir os esforços do Congresso para impor uma regulamentação mais rigorosa. "Não deixem que esses burocratas, esses assessorzecos de segunda, vos levem a melhor. Defendam os vossos interesses", incitou. Por "levar a melhor" referia-se à imposição de algumas condições ao sector em troca do apoio governamental.

Barney Frank, presidente da Comissão de Serviços Financeiros da Câmara dos Representantes, foi rápido a mandar fazer botões de lapela "Assessorzeco de segunda" e distribuiu-os pelos assessores do Congresso.

Mas o problema não é Boehner: Barney Frank já conseguiu a aprovação de reformas financeiras relativamente rigorosas no Congresso. A verdadeira questão está em saber o que se vai passar no Senado.

Aí a legislação que está em cima da mesa foi redigida pelo senador Chris Dodd, do Connecticut. É substancialmente mais fraca que a lei Frank e precisa de ser reforçada, um tema a que voltarei em futuros artigos. No entanto, nenhuma proposta se tornará lei se os republicanos com assento no Senado forem uma força de bloqueio à reforma.

Mas não terão os opositores da reforma medo de ser vistos como aliados (que são) dos maus da fita? Talvez não. Em Janeiro passado, Frank Luntz, estratego do Partido Republicano, fez circular um memorando sobre como fazer oposição à reforma financeira. A ideia-chave era que os republicanos deviam afirmar que o céu fica para baixo e a terra para cima: que a legislação reformista é um "enorme cheque em branco para os bancos" e não um conjunto de restrições para os ditos.

E eis que, há poucos dias, o senador Richard Shelby, do Alabama, numa carta a atacar a lei Dodd, argumentava que uma componente essencial da reforma - uma vigilância mais apertada das empresas financeiras grandes e sistemicamente importantes - é um cheque em branco porque "o mercado vai passar a achar que essas empresas são 'demasiado grandes para falirem' e gozam do apoio implícito do governo. Pois, senhor senador, o mercado já considera que essas empresas têm apoio implícito do governo - porque o têm. Seja o que for que pessoas como Shelby possam dizer agora, em qualquer crise futura essas empresas serão salvas, qualquer que seja o partido no poder.

A única questão está em saber se vamos regulamentar a banca para que ela não possa abusar do privilégio do apoio governamental. E é essa regulamentação - e não os futuros resgates - que os opositores da reforma estão a tentar bloquear.

A situação presente é portanto de burocratas contra plutocratas: entre os que pretendem refrear a brida de bancos à deriva e os banqueiros que querem ter a liberdade de pôr a economia em risco, liberdade essa potenciada pela certeza de que os contribuintes os salvarão em caso de crise. Independentemente do que digam, a verdade é que as pessoas como Shelby estão do lado dos plutocratas; o povo dos EUA deveria estar do lado dos burocratas, que estão a tentar protegê-lo.

Economista Nobel 2008

Exclusivo i/The New York Times


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