Casamento
A matemática prova: o amor não chega para se viver feliz para sempre
por Marta F. Reis, Publicado em 01 de Abril de 2010
Investigador da Universidade Complutense revela a chave para casamento duradouro
É um campeonato em que não faltam clichés. Que não basta amor e uma cabana, e que o amor não faz milagres são apenas alguns. Mas e se um matemático disser que pode oferecer conselhos sobre como manter uma relação duradoura? A proposta é do espanhol José-Manuel Rey, que assina esta semana um artigo na revista científica "PLoS ONE".
Com base na teoria matemática do controlo optimal, usada para resolver problemas de optimização em sistemas dinâmicos, o investigador do departamento de Análise Económica da Universidade Complutense, em Madrid, diz ter identificado a chave de uma relação eterna: um investimento contínuo e vigilante dos parceiros, para combater o desgaste natural do amor.
A teoria assenta em pressupostos científicos validados em trabalhos anteriores, um dos quais recebeu o nome de "segunda lei da termodinâmica das relações sentimentais" e foi definido pelo psicólogo John Gottman, em 2002. "Há uma tendência do amor inicial por a outra pessoa desaparecer, uma inércia que tem de ser combatida com energia e "medidas conscienciosas", lembra Rey.
Para pôr a matemática ao serviço da terapia matrimonial, o investigador descreveu um paradoxo comum nas relações amorosas: "Uma relação planeada para durar vai muito provavelmente acabar." Segundo o investigador, os argumentos são claros dos dois lados da balança: em 2005, a taxa de divórcio na Europa era de 44% e estima-se que metade das pessoas na casa dos 40 anos já se tenham divorciado pelo menos uma vez.
Outro estudo, realizado pelo norte-americano Mathew Bramlett, em 2002, revela que as coabitações não matrimoniais são mais instáveis: 49% das relações só duram cinco anos e 62% dez anos; nos casamentos as projecções são 20% e 33% para os mesmos períodos. Ainda assim, na hora de dar o nó reina quase sempre o optimismo. Numa sondagem norte-americana, 93,9% dos casados considerava a hipótese de divórcio baixa ou muito baixa, um sentimento comum em 81,1% dos casais de namorados. "É intrigante que, apesar de conhecerem a elevada probabilidade de isso acontecer, a grande maioria das pessoas pensa que a sua relação não vai acabar", afirma Rey
Para modelar o casamento feliz, José-Manuel Rey partiu do princípio de que o pico de felicidade conjugal acontece na altura do casamento. "Neste momento, os dois parceiros acordam tornar-se um casal e fazer o que for preciso para assegurar um longo futuro juntos", escreve o investigador. Equações depois, demonstrou que, apesar de as pessoas conhecerem a realidade, conseguem partir para o casamento com uma visão positiva. E concluiu que por detrás do desgaste marital está um fenómeno básico: uma lacuna de esforço.
"É a diferença entre o esforço necessário para manter a relação e o esforço que estaríamos dispostos a fazer se só tivéssemos o presente em consideração. Portanto, se esta diferença for grande demais, acabamos por não investir o suficiente e a relação fracassa", explica ao i João Santos Silva. Para o investigador em econometria da Universidade de Essex, a matemática das relações pode ser uma boa ferramenta para desmontar a realidade complexa: "Nos últimos 25 anos, este tipo de modelos tem produzido muitos resultados interessantes, e o artigo insere-se nesta longa tradição. Enfatiza a necessidade de haver um investimento continuo na relação para que ela possa sobreviver; um facto que parece ser evidente, mas que aparentemente é negligenciado em muitas relações."
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