Primeiro plano

Liberdade de indiferença

por Paulo Tunhas, Publicado em 31 de Março de 2010   
A política é um luxo de ricos, que chegava aos pobres pela ideologia. Mas hoje, quando tudo é ideológico, o caminho está barrado
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O asno mais célebre do mundo, o do filósofo medieval francês Jean Buridain, morreu à fome por não ter conseguido escolher entre dois fardos de feno igualmente apetitosos que se encontravam a idêntica distância dele. Séculos de labor por parte dos lógicos informam-nos que, nestes casos em que nada torna uma coisa preferível à outra, a política razoável consiste em decidir ao acaso. É muito provavelmente verdade, e, no caso em questão, evitava certamente um fim infeliz.

Isto vem, é claro, a propósito da eleição de Pedro Passos Coelho para chefe do PSD. Posso estar muito enganado, mas tudo me parece indicar que, em muitos aspectos, o PSD sairá disto muito mais parecidinho com o PS do que antes, o que, tendo em conta o que o PS é hoje, não é particularmente recomendável. Objectar-se-á que a diferença ideológica entre Passos Coelho e o PS (quer dizer, Sócrates) é muito maior do que aquela a que a muito injustiçada Manuela Ferreira Leite se encontrava. Não parece ser assim.

Primeiro, é discutível que Sócrates tenha uma "ideologia". Segundo, é igualmente discutível que Passos Coelho a tenha. Terceiro, vivemos num mundo habitado por questões diversas (aquecimento global, casamento gay, e por aí adiante), que o mais ligeiro contacto com a comunicação social - o toque dos media é o verdadeiro toque de Midas - constitui imediatamente em arremedos de ideologia. Neste mundo saturado, as ideologias propriamente políticas têm de dar demasiados encontrões às outras para fazerem o seu caminho. Ou então de se compor com elas a ponto de ficarem irreconhecíveis. Qual, sendo assim, a utilidade da diferença ideológica? Sobra o estilo e a maneira. E, na maneira e no estilo, Passos Coelho parece-se muito com Sócrates.

Felizmente, no que respeita à escolha entre os partidos políticos, a situação não é tão trágica como a que se apresentou ao asno. Em situações normais ninguém corre o risco de morrer por se recusar a decidir entre bens idênticos, sobretudo quando ambos são pouco aprazíveis. Pode-se continuar em frente em busca de melhores paragens. O problema com esta liberdade de indiferença é exactamente a indiferença. A política é um luxo de ricos, que chegava normalmente aos pobres pela ideologia. E pela ideologia hoje não chega. Cada vez mais pobres, as pessoas, tirando alguns poucos grupos por natureza activos, tenderão progressivamente para o isolamento absoluto. O resultado disto será duplo: divórcio e indiferença. Divórcio em relação aos seus representantes, em quem confiarão ainda menos do que confiam hoje. E indiferença pelos seus actos, palavras e querelas. "São brancos, que se entendam", como dizia o outro.

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto


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