Viúvas negras. As mulheres que matam e morrem por amor e vingança

por Rosa Ramos, Publicado em 31 de Março de 2010   
Moscovo esteve de luto pelas 39 vítimas do duplo atentado suicida na rede do metro
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Moscovo voltou ontem a viver horas de pânico depois de um telefonema ter alertado as polícias para uma ameaça de bomba na Catedral do Cristo Salvador, um dos principais santuários religiosos da capital russa. No dia de luto, em que as estações de rádio e de televisão baniram a publicidade e os espectáculos musicais, uma centena de pessoas foi de imediato evacuada da catedral. Porém, a polícia não encontrou qualquer explosivo.

As discotecas e outros locais de diversão de Moscovo fecharam as portas em sinal de luto pelo ataque de segunda-feira no metro da cidade, que provocou a morte de 39 pessoas e feriu outras 64. Numa das colunas da estação de metro de Park Kulturi lia-se num cartaz improvisado: "Aqui, a 29 de Março de 2010, aconteceu um atentado terrorista que matou pessoas." O duplo atentado suicida, atribuído às viúvas negras, não afastou as pessoas do metro: os passageiros voltaram e depositaram centenas de ramos de flores à entrada das estações atingidas, nas mesmas grades que anteontem foram usadas para selar escadas e corredores.

O governo russo continua determinado a apurar responsabilidades. O ministro dos Negócios Estrangeiros, Sergei Lavrov, atribuía ontem, em declarações à agência Interfax, parte da culpa aos militantes que operam na fronteira do Afeganistão com o Paquistão. Alguns oficiais russos acreditam que os rebeldes no Norte do Cáucaso têm ligações com o grupo terrorista islâmico Al-Qaeda.

As viúvas Logo na segunda-feira, o chefe do Serviço de Segurança Federal, Alexander Bortnikov, avançava que as bombistas suicidas do metro estavam ligadas ao Norte do Cáucaso e ao grupo das viúvas negras: mulheres chechenas que perderam as famílias na guerra com a Rússia e são recrutadas pelos comandos separatistas para serem mártires da jihad. À hora de ponta de segunda-feira havia meio milhão de pessoas no metro de Moscovo. Nas imagens das câmaras de vigilância sobressaíram duas mulheres de pele morena, olhos castanhos e idades entre os 18 e os 20 anos. À cintura traziam entre dois e quatro quilos de TNT, que fizeram explodir.

A descrição é um déjà vu dos vídeos do cerco do Teatro Dubrovka, em 2002, quando um grupo de viúvas negras se fez explodir e matou 119 reféns. Cinco deixaram mensagens gravadas explicando as razões por que participaram no ataque. Nos vídeos, difundidos pela televisão Al-Jazeera, as mulheres apareciam vestidas de negro com lenços islâmicos e olhos delineados com kohl escuro, envoltas em cintos de explosivos. Os atentados suicidas cometidos por mulheres chechenas começaram em 1999, após a entrada das tropas da Rússia no território, em 1993.

As viúvas negras surgem no contexto de uma sociedade chechena muito conservadora em relação ao papel das mulheres, vítimas das agressões e das violações dos soldados russos e empurradas para segundo plano pelos próprios companheiros. A Rússia encara-as como o resultado da islamização do conflito regional do Cáucaso.


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