Visto de fora

Amor eterno ao chefe (basta não estar muito perto dele)

por Francesco Alberoni, Publicado em 30 de Março de 2010   
Na formação da sociedade os seres humanos aliam-se apenas por calculismo ou as paixões também poderão ser construtivas? Há quem defenda uma e outra tese
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Sempre existiram duas correntes de pensamento sobre o papel das paixões na formação das sociedades, aplicáveis tanto ao nível colectivo como ao dos casais. Uma das correntes defende que a sociedade se forma por contrato e que a paixão apenas pode confundir e perturbar. Para Hobbes, os homens lutam entre si e apenas põem fim à violência decidindo racionalmente atribuir o poder a um soberano, em troca da paz e da ordem.

Todos os politólogos da escola anglo-saxónica defendem que os seres humanos se aliam com base num cálculo de custo-benefício. Quando agem levados por paixões criam monstros políticos. Contudo, os grandes sociólogos Pareto, Durkheim e Max Weber salientam que as paixões também têm uma força construtiva. Weber explicou-nos que o "chefe carismático" é amado pelos seus seguidores e unifica o grupo com uma mensagem de fé e de esperança. Com base neste conceito, defendi que todas as igrejas, partidos políticos e sindicatos se formam no cadinho emocional dos movimentos colectivos de onde emergem o grupo e o chefe.

Depois o movimento torna-se instituição. Quando se trata de relações a dois, Rousseau, De Rougemont, Sartre, Fromm e quase todos os psicólogos americanos contemporâneos desconfiam do enamoramento, que consideram uma ilusão. Shakespeare, Stendhal, Manzoni, Jung ou Roland Barthes afirmam que o enamoramento cria uma ligação forte que pode durar muito tempo. Eu, no meu livro "Enamoramento e Amor", demonstro que se trata do mesmo processo movimento-instituição. Podemos então dizer que, nos movimentos colectivos, os seguidores se apaixonam pelo chefe carismático? Num certo sentido, sim: amam-no apaixonadamente, idealizam-no e alguns até estão dispostos a morrer por ele. Mas é um amor à distância, sem relação pessoal.

É por essa razão que pode durar muito mais que o enamoramento numa relação real, em que pode haver uma desilusão, uma incompreensão que o compromete e o faz terminar. Mas são apenas os seguidores distantes que sentem pelo chefe este amor tenaz e idealizado. Os que estão perto do chefe descobrem nele fraquezas e defeitos. Napoleão afirmava que todos os seus marechais estavam convencidos que eram mais corajosos que ele. Muitos achavam até que podiam assumir o lugar dele. Mas isso não passa de uma ilusão. Os milhões de seguidores distantes continuam a amar o respectivo chefe, perdoam-lhe todos os erros e até a derrota. Os franceses teriam mantido Napoleão. Isso só não aconteceu porque os ingleses o expatriaram para Santa Helena.

Sociólogo, escritor e jornalista


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