A Autoeuropa, os sindicatos e um país com a pistola apontada à cabeça

por André Macedo, Publicado em 21 de Maio de 2009   
A empresa alemã não quer pagar horas extras aos sábados. Defende que as paragens forçadas por falta de encomendas compensam o esforço aos fins-de-semana. O drama repete- -se: a Autoeuropa ameaça fazer as malas.
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Num país sem indústria e tecnologicamente atrasado como Portugal, a Autoeuropa é uma espécie de Ferrari que todos os governos protegem com zelo domingueiro.

O desvelo traduz-se em subsídios directos, isenções fiscais, cedência de terrenos e outras benfeitorias que se foram estendendo às principais marcas de automóveis que se instalaram em Portugal - Opel, Peugeot-Citröen, Toyota e Mitsubishi.

As contrapartidas desembolsadas são impossíveis de contabilizar, embora a justificação política da sua atribuição seja fácil de apontar. É significativo o impacto que estas empresas têm na riqueza do país, nos empregos que suportam e no volume de exportações que representam. A Autoeuropa vale 1% do produto interno bruto e 10% das vendas para o exterior (só atrás da Galp).

Directamente, a empresa alemã emprega três mil pessoas. À sua volta, e das outras marcas, há outros 40 mil trabalhadores que dependem para viver da indústria de componentes que alimenta o negócio principal. Estas pequenas indústrias satélites são vitais para o país: facturam cinco mil milhões por ano e movimentam um ecossistema que, sem as marcas de automóveis por perto, morreria asfixiado.

Acontece que o custo para o Estado, através dos subsídios permanentes, não é desprezível. Ainda mais difícil de aceitar é a pressão a que os governos estão sujeitos para adoçar a vida a estas empresas. O medo de que elas possam abandonar o país - provocando um rombo no PIB, como a Opel - é permanente e provoca distorções fatais no mercado. Por um lado, outros negócios relevantes não recebem os mesmos apoios. Por outro, a vida interna destas empresas também é gravemente perturbada.

O que está a acontecer na Autoeuropa é sintomático.

Os alemães não querem pagar horas suplementares ao sábado por considerarem, justamente, que os dias extras de férias atribuídos este ano - devido à quebra de produção - são suficientes para compensar esse trabalho. Os sindicatos discordam e ignoram olimpicamente os tempos em que vivemos.

A Autoeuropa e os sindicatos sabem o que estão a fazer. Com o desemprego galopante (500 mil pessoas) o bombeiro Manuel Pinho dificilmente resistirá a abrir de novo a carteira para resolver um problema que não é dele. Se isso acontecer, ganharão a empresa alemã e os trabalhadores, mas perderá o país, que sucumbirá, de novo, à chantagem. Um dia a casa vem abaixo, como aconteceu com a Quimonda. E aí já não há nada a fazer. Ainda bem.


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