Cidade

Quando as salas de cinema fecham, há sempre um lençol

por Clara Silva, Publicado em 29 de Março de 2010   
Sábado foi noite de projecção de filmes em cinemas abandonados de Lisboa. Uns são igrejas ou supermercados, outros estão a apodrecer
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À porta do antigo cinema Xenon, numa cave da Avenida da Liberdade, várias pessoas engravatadas enchem o pequeno corredor onde outrora um arrumador picava bilhetes. A sala de cinema fechou em 1990 e, desde então, tem tido mais movimento à noite do que nos dez anos em que exibiu filmes. Depois de encerrar, o Xenon foi vendido e transformado numa igreja pentecostal. Não foi o único. A reconversão parece ser o destino das salas de cinema espalhadas por Lisboa.

No cinema Império, na Alameda, as paredes assistem desde os anos 90 às cerimónias da Igreja Universal do Reino de Deus, a actual proprietária do edifício. As cadeiras do cinema Royal, na Graça, foram substituídas pelas prateleiras do supermercado Pingo Doce que ali se instalou. Na Avenida Álvares Cabral, o filme é parecido: o Jardim Cinema, com capacidade para mil espectadores, transformou-se em salão de jogos e é agora uma espaçosa loja chinesa, onde cabe tralha para todos os gostos.

"Existem perto de 100 salas de cinema abandonadas e reconvertidas", afirma Alice Banza, uma das fundadoras do Movimento Acorda Lisboa (MAL), que organizou no sábado sessões de projecção de filmes nas fachadas de quatro antigos cinemas da cidade: Xenon, Odéon, Animatógrafo do Rossio e Salão Lisboa.

O som dos peep-shows do antigo Animatógrafo do Rossio é rapidamente abafado pelas colunas do cinema improvisado na Rua dos Sapateiros. A equipa do MAL ergue um lençol de dois metros do outro lado da rua e cerca de trinta pessoas amontoam-se em frente à sex-shop, um dos poucos edifícios exemplares da Arte Nova na cidade.

"Usamos um portátil, um gerador, um projector e colunas", conta Alice, que já realiza sessões de cinema em lençóis desde 2007. Na Rua dos Sapateiros, o projector é colocado em cima de um caixote do lixo para estar à altura do lençol. "Os filmes que aqui exibimos são cedidos por jovens produtores e alunos de escolas de cinema", explica. "Recebemos vários."

Ao fim de duas curtas-metragens, já toda a gente está sentada no passeio como numa confortável sala. Excepto quando os poucos carros que passam na rua interrompem a projecção. De repente, um africano aterra na rua com um mão cheia de colares para vender. Se ao menos fossem pipocas...


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