Pedofilia.
Pedofilia. Activistas querem levar Bento XVI à renúncia
por Vanessa Pires, Publicado em 29 de Março de 2010
Papa aproveitou a missa de Domingo de Ramos para se defender das acusações
Uma a uma, a conta-gotas, as denúncias das vítimas de padres pedófilos estão a vir ao de cima em Itália. Bento XVI já se estará a preparar para mais uma nova onda de notícias de escândalos de crianças vítimas de abuso sexual, que têm justificado críticas vindas de vários países, e muitas pressões de activistas católicos para que o Papa se demita. Ainda ontem um grupo de britânicos protestou pelos direitos humanos, em Londres, junto à Catedral de Westminster. Opõem-se à visita de Bento XVI ao Reino Unido e defendem a sua demissão, já que, segundo Peter Tatchell, organizador da manifestação, "não conseguiu garantir que os sacerdotes que abusaram sexualmente de jovens fossem denunciados à polícia".
Numa espécie de resposta, mas sem se referir directamente aos casos de abuso sexual de menores por responsáveis da Igreja Católica, o Papa disse que a fé lhe dará "coragem para não se deixar intimidar pelos rumores da opinião dominante", durante a celebração litúrgica de domingo.
A abertura da Semana Santa coincidiu este ano com a divulgação destes escândalos. Durante a homilia de domingo o Papa referiu-se várias vezes ao escândalo que tem afectado a Igreja. Bento XVI disse, durante a celebração na Praça de São Pedro, que o homem, por vezes "cai nos níveis mais baixos e vulgares" e "afunda-se no pântano do pecado e da desonestidade". Bento XVI referiu-se, também em português, aos "jovens e aos que trabalham para os educar e proteger".
Vincent Nichols, arcebispo e líder da Igreja Católica da Inglaterra e do País de Gales, saiu em defesa de Bento XVI, alegando que, apesar "da irritação e da consternação" sobre o possível encobrimento de casos de abusos sexuais feitos por padres, não há razões para que o Papa renuncie ao cargo: "Ele não está envolvido em nenhuma tentativa de ocultar um caso. Foi o cardeal Ratzinger que impulsionou mudanças significativas", afirmou, dando exemplos das boas práticas de Bento XVI: "Mudou a lei para que as ofensas sexuais cometidas contra qualquer pessoa menor de 18 anos passassem a ser consideradas crime dentro da lei da Igreja."
Nichols não foi o único cardeal a manifestar o seu apoio a Bento XVI. O cardeal Walter Kasper, que chefia o Conselho Ecuménico da Igreja Católica, afirmou no sábado que foi o Papa, quando ainda chefiava a Congregação para a Doutrina da Fé, como cardeal, quem tomou atitudes que levaram ao seguimento de vários casos de supostos abusos sexuais feitos por padres.
A polémica em torno da Igreja Católica reacendeu-se, na semana passada, depois de o jornal norte-americano "The New York Times" ter publicado uma reportagem a dizer que, em 1996, o então cardeal Joseph Ratzinger não teria dado resposta a cartas de clérigos norte-americanos, que acusavam um padre do estado do Winsconsin de abusar sexualmente de cerca de 200 menores surdos, entre 1950 e 1972. Também enquanto cardeal, e segundo informações do jornal americano, o Papa nada teria feito para impedir que o padre alemão Peter Hullermann, suspenso em 1980 por acusações de pedofilia em Essen, retomasse o sacerdócio noutra paróquia do país, em Munique. Seis anos depois, Hullermann foi julgado e considerado culpado de agressão sexual a vários menores em Munique.
A presidente da Suíça, Doris Leuthard, propôs ontem a criação de uma lista negra de padres pedófilos, que sirva de registo dos padres que tenham incorrido nesta prática, de modo a impedi-los de contactar com crianças. "Tanto faz que os autores dos abusos sexuais sejam civis ou clérigos. Ambos estão sujeitos à lei criminal suíça, sem ses, nem mas", afirmou Leuthard. De acordo com informações avançadas pela imprensa suíça, a conferência de bispos está a ponderar realizar um encontro de urgência, antes da reunião de 31 de Maio, para debater esta proposta.
Apesar da polémica em torno de Bento XVI, milhares de fiéis acompanharam ontem o Papa na celebração da missa do Domingo de Ramos.
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