BPN falido e à venda
Publicado em 21 de Maio de 2009
A pequena e média banca são os principais interessados nos activos do BPN. Os grandes descartam a corrida
O Montepio e os bancos estrangeiros de dimensão média em Portugal são os principais interessados em comprar o Banco Português de Negócios (BPN), que tem na sua rede de balcões o activo mais apetecível. O preço é um dos entraves, já que os potenciais compradores poderão não estar disponíveis para avançar com valores elevados. BCP, BES e BPI não rejeitam entrar nesta corrida, depois de o governo ter anunciado ontem que prefere vender da instituição, onde já injectou dois mil milhões de euros.
"Entre os cenários, com certeza que aquele para o qual nos devemos encaminhar preferencialmente deverá ser o da alienação", referiu Teixeira dos Santos, reconhecendo que para a operação avançar é preciso "condições desejáveis e interessados".
Há até agora uma instituição que assume o interesse: o Montepio. "Se a solução desenhada for adequada aos nossos objectivos de crescimento, faz sentido", confirmou ao i o presidente do Montepio, Tomás Correia. Com os 216 balcões do BPN, a instituição veria a sua rede de retalho em Portugal chegar às 514 agências. Em comparação, o Banco Espírito Santo conta com cerca de 700 balcões em território português.
DE OLHO EM ESPANHA. Mas ao Montepio falta algo que o Estado e a Caixa Geral de Depósitos podem vir a privilegiar: balcões em Espanha. A hipótese de trocar os balcões do BPN por agências em território espanhol, de forma a potenciar o crescimento do banco público naquele país é um dos cenários já pensados. Banco Popular, BBVA ou Santander ficariam, assim, em melhor posição para entrar no BPN.
O presidente do Popular, Rui Semedo, opta por não comentar. "Não conheço em profundidade o dossier, logo não nos pronunciamos", disse ontem ao i sobre o eventual interesse nos activos do banco nacionalizado. Também o Santander Totta não quis comentar e, até ao fecho da edição, não foi possível obter uma reacção do BBVA.
Já Juan María Nin, presidente do La Caixa, admite crescer por aquisições, mas só quando a crise passar. O responsável, que esteve ontem em Lisboa, numa conferência sobre o sector financeiro, afirmou: "No futuro, vamos apostar no crescimento, orgânico e inorgânico, mas tendo como prioridades a solvabilidade, a liquidez, o timing, o risco e o talento."
Também presente na conferência esteve José Maria Ricciardi, presidente do BES Investimento, que em declarações ao i considerou o BPN pespecialmente apetecível para "os bancos de pequena ou média dimensão" que procurem "dar um salto de crescimento em Portugal". Sobre o interesse do BES, respondeu: "Parece pouco provável que venha a querer."
Posição partilhada por Carlos Santos Ferreira, líder do BCP, que é peremptório: "Não temos nenhum interesse nos activos do BPN." O presidente do Banif, Horácio Roque, assegurou que "para já, não está interessado" no BPN, à imagem do BPI que, nas actuais circunstâncias, não quer entrar na corrida ao banco.
Uma outra instituição financeira que pode ver no BPN uma boa oportunidade de crescimento é o Barclays, que ambiciona estar entre os cinco maiores bancos em Portugal, conforme apontou Frits Seegers, administrador do grupo, em entrevista ao Diário Económico na semana passada. Contactada, fonte oficial do Barclays preferiu não fazer qualquer comentário em relação ao interesse nos activos do banco português.
FALTA DE DINHEIRO. Apesar da situação financeira dos bancos estar hoje melhor que há uns meses, não está ainda o suficientemente sólida para suportar aquisições. "A maioria dos bancos está a apostar no corte de custos", lembra André Rodrigues, analista financeiro do CaixaBanco de Investimento. No seu entender, os 216 balcões detidos pelo BPN são o activo mais apetecível do banco, até porque mesmo a carteira de créditos não é particularmente atractiva. Compradores óbvios não vê nenhum, embora os "estrangeiros possam ver [na aquisição dos balcões do BPN] o princípio de algo grande". Para este analista, o interesse do Montepio nas agências do BPN "faz sentido, mas dependerá do preço" e este só poderá ser definido quando for decidido o que vai ser alienado.
Além a rede de balcões, o Montepio mostra-se também interessado na área do BPN vocacionada para as pequenas e médias empresas. Um segmento que a instituição apostou nos últimos anos.
Quanto à capacidade financeira para avançar com a aquisição de parte do BPN nesta altura, o Montepio garantiu ao i estar em condições para estudar e avaliar a possível compra de activos, desde que não assuma os antigos problemas da instituição, salientou Tomás Correia. O Montepio mantém negociações para comprar a Real Seguros, seguradora do BPN e da Sociedade Lusa de Negócios (SLN), ex-accionista do banco.
SLN QUER INDEMNIZAÇÃO. O ministro das Finanças,Teixeira dos Santos, garantiu ontem que os ex-accionistas do BPN não terão direito a qualquer indemnização à conta da nacionalização. Contactada, a SLN garantiu que, "em princípio", não ser indemnizada "é um cenário que não se coloca". Valores em concreto, a SLN diz que só terá na altura de pedir a indemnização, "quando tiver acesso à avaliação feita ao banco". com Ana Suspiro e Luís Reis Ribeiro
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