Emprego

Ser despedido foi a melhor coisa que me aconteceu

por Rosa Ramos, Publicado em 27 de Março de 2010   
A maior parte desespera, mas há quem veja no azar uma oportunidade. São os optimistas. Como António Quina, que só criou o fenómeno milionário "A Vida é Bela" porque perdeu o emprego
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António Quina é um vendedor de sonhos. Há nove anos era um ilustre desempregado. O fundador da empresa "A Vida É Bela" não tem secretária e recusa-se a usar gravata, mas só este ano espera facturar 47 milhões de euros com os negócios em Portugal, Espanha e Brasil. Um sucesso em catadupa. Em 2001, as Torres Gémeas caíam e o governo de António Guterres demitia-se. António Quina era sócio-gerente de uma empresa de publicidade - um castelo de cartas prestes a desabar. Em menos de 24 horas foi forçado a despedir 22 pessoas. Um momento memorável: "Foi o dia mais difícil da minha vida", confessa. Pouco depois, seria ele a perder o emprego. "De virtualmente rico passei a realmente pobre", conta. Uma noite, o filme "A Vida é Bela", de Roberto Benigni, mudou-lhe a vida. Ensinou-o a "relativizar os problemas". E as ideias começaram a surgir. "Trabalhei muitos anos em programas de fidelização, em que os clientes coleccionavam algo em troca de comprar alguma coisa. Quis reinventar o conceito." Na altura, admite, ainda não sabia como. Até que decidiu tornar-se o primeiro empresário do mundo a vender experiências. Em 2002 começou as rondas intermináveis pelos bancos, até que um gerente acreditou no projecto e lhe emprestou 40 mil euros. Só havia uma contrapartida: comprar um faqueiro de prata. "Eu, que estava desempregado e mal tinha dinheiro para comer", conta. Desfez-se do faqueiro passado um mês e deitou mãos à obra. Primeiro passo: contratar funcionários. Convidou cinco antigos colegas, todos desempregados. Depois alugou um espaço em Lisboa, "tão pequeno como a actual sala de reuniões de um dos nossos escritórios", com uma renda de 300 euros. Restaurou o espaço e pintou as paredes. Hoje a empresa "cresce a três dígitos". Tem mais de 100 funcionários e lidera o mercado. António Quina, 43 anos, é uma espécie de consultor e director criativo do projecto. Compete-lhe descobrir novas tendências. "É um conceito que não se esgota. Nós é que nos esgotamos se não tivermos a capacidade de nos reinventarmos". Truques para vencer? Três: "Vejam o filme 'A vida é bela'. Depois olhem-se ao espelho e digam: 'Eu acredito em ti.'" O terceiro? "Trabalho, trabalho, trabalho." E um conselho: "Os momentos de sucesso são mais difíceis de gerir. Na mó de baixo temos pouco a perder. Sou um optimista. Nunca vejo uma dificuldade sem ver uma oportunidade", resume.

Um traço de personalidade que no momento em que se perde o emprego pode fazer toda a diferença. "A primeira coisa a perceber é que não é o fim do mundo. Será sempre uma situação transitória", explica o especialista em direito do trabalho Artur Fernandes. Nisto todos os especialistas concordam: o optimismo com que se aceita e enfrenta a situação determina o sucesso do que há-de vir a seguir. "É importante compreender que a vida é mudança e resistir às mudanças só dificulta o processo", salienta a psicóloga Margarida Pedroso de Lima. "O ideal é parar e reflectir sobre a sua vida, os seus desejos e as suas possibilidades", reforça o psicólogo do trabalho João Franqueira.

Uma boa ideia Ainda há dois anos Luís Pombo ganhava 850 euros e era chefe de uma oficina na Guarda. Aos 29 anos, sentia que a vida lhe corria de feição. Até que foi despedido sem aviso prévio. "O meu patrão estava na Suíça e limitou-se a enviar um email ao contabilista da empresa." No primeiro dia ficou em casa. "Estava muito em baixo", diz. Ao segundo rumou até ao centro de emprego. Queria abrir uma oficina. Estava "farto" de patrões. Só não esperava que lhe negassem o financiamento. Um balde de água fria. Mas não desistiu. Nessa noite teve a ideia que lhe mudou a vida. "Sempre fiz biscates, mesmo quando trabalhava na oficina. E se passasse a fazer apenas assistência ao domicílio?" Vendeu o carro, pediu um empréstimo de três mil euros ao banco, comprou uma carrinha Ford Transit, apetrechou-a com o material de oficina necessário e em Dezembro de 2008 fez-se à estrada. Nascia a empresa pioneira "Auto-Rodinhas". Meses depois tinha conseguido pagar o empréstimo ao banco. O objectivo é "crescer". Para depois fica o sonho maior: criar um franchising. "Um dia hei--de estar em todas as capitais de distrito."

Ter perseverança, asseguram os especialistas, é determinante para atingir o sucesso. "Haverá momentos em que se sentirá melhor. Outros em que se sentirá pior. O reconfigurar de toda a rotina pode criar ansiedade. Exercite-se, passeie, aproveite o tempo para recuperar forças", recomenda João Franqueira. "Há uma fase psicológica do desemprego que o fará duvidar de si e das suas capacidades." Margarida Pedroso de Lima frisa: "Ser despedido não o põe em causa como pessoa em todos os aspectos. A profissão é apenas uma das dimensões da vida." O pior a fazer, acrescenta, é "ficar preso ao passado e remoer vinganças." Deve estudar-se "novas alternativas e novas metas". João Franqueira volta à carga: "Sem que se aperceba, o desemprego pode ser a melhor coisa que lhe aconteceu. Não é fácil sair da zona de conforto, mas recordar-se dos sonhos e planos há muito arquivados pode ser uma saída."

Dos sonhos à realidade Em 2008, o salário de Liliana Machadinha começou a chegar atrasado ao banco. Depois passou a ser pago às metades. Em Agosto de 2009 a jornalista de 29 anos inscrevia-se no Centro de Emprego. Estado oficial: desempregada. "Nos primeiros dias não se estranha. O tempo é todo ocupado com papéis, no Centro de Emprego ou no Tribunal", conta. Depois começa o frenesim dos currículos. A seguir já se pensa nas estratégias para sobreviver. Passo um: pedir ajuda à família. Passo dois: regressar de armas e bagagens para casa dos pais. "Perde-se tudo. O espaço, a independência. É retroceder."

Liliana procurou alternativas. Nem um mês depois, estava a frequentar em Évora um curso para transformar mulheres desempregadas em empresárias, o DoNA Empresa. Depois juntou-se a duas amigas e fundou aquilo que em breve será uma empresa de organização de eventos culturais em salas de espectáculos e empresas na Beira Interior, "uma região onde não há nada do género". A ideia, garante, já tinha anos. Se não tivesse sido despedida, nunca teria saído da gaveta. "Seria apenas um 'se'", acredita. Para já, o processo está parado, "por questões burocráticas". Começar um negócio não é fácil. "Estou a investir tudo o que tenho. Se correr mal, nem sequer terei direito a subsídio de desemprego." Truques para não desanimar? Rir. "Rir é sempre o melhor remédio. E o apoio da família é fundamental", garante. Mas há um segredo maior para progredir: "Não parar de bater a todas as portas. Alguma terá, forçosamente, de se abrir."


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