Família

Terríveis 14 anos. A idade em que correr riscos dá mais gozo

por Marta F. Reis, Publicado em 26 de Março de 2010   
Investigadores identificam a idade mais perigosa na adolescência. Saiba a que sinais deve estar atento
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"Os nossos filhos não são adversários nem inimigos, nem pessoas que de repente aterraram lá em casa", diz o pediatra Mário Cordeiro, pai de cinco filhos com idades entre os seis e os 31. Para muitos casais, a visão pode ser outra, sobretudo quando começam os comportamentos mais desgovernados da adolescência. Um estudo publicado ontem na revista científica "Cognitive Development" revela que a idade potencialmente mais perigosa nos rapazes são os 14 anos.

Para as raparigas ainda não há resultados, mas diz a sabedoria popular que são menos arrebatadas, pelo menos ao nível dos comportamentos, pela adolescência. Segundo os especialistas contactados pelo i, mesmo que o pico seja aos 14, o importante é perceber que à medida que os filhos crescem, a negociação de regras deve ser rigorosa.

Stephanie Burnett, neurocientista da University College London (UCL) explica ao i os passos dados pelo novo estudo na compreensão da adolescência. O objectivo era estudar a "procura do risco", o que levou a uma experiência com 86 indivíduos do sexo masculino, entre os nove e os 35 anos. A estratégia era simples: cada participante tinha de entrar num jogo de apostas num computador, cada ronda com duas opções. Havia as mais arriscadas, onde sabiam que podiam ganhar grandes quantias, e outra mais segura, e menos promissora. No final, registavam a satisfação dos participantes com o resultado das suas escolhas. "A procura de risco revelou uma trajectória de desenvolvimento com a forma de um U invertido. Os 14 anos são o pico da curva, mas os 13 e os 15 também são elevados quando comparados com a infância e idade adulta", diz Stephanie Burnett. Se os rapazes de 14 anos foram os que mais arriscaram, duas conclusões adicionais deixaram os cientistas entusiasmados com o padrão: por um lado, foi nesta idade que se registaram índices de felicidade mais elevados perante uma vitória triunfante sobre o risco; por outro, a escolha do risco não era inconsciente. "Não se trata de não anteverem as consequências, mas de querem correr os riscos", adianta a investigadora.

Pais mais permissivos

Não há receitas infalíveis para lidar com a adolescência, mas Mário Cordeiro, ou psicólogos como Joana Amaral Dias ou Marta Pedro, especialista em estilos parentais, estão de acordo na hora de abordagem: negociação e supervisão são as palavras chave. Mário Cordeiro tem três filhos a quem falta passar a barreira dos 14 anos, e boas lições do passado aprendidas com os filhos mais velhos. "Joguei sempre em antecipação: primeiro, explicando aos meus filhos o que seriam as novas etapas da vida deles, segundo, fazendo descobrir o menu da vida de forma tranquila, atempada e agindo com convicção e terceiro, não fazendo dramas de coisas que não valiam a pena", explica. Já a psicóloga Marta Pedro detecta um factor que pode acentuar a natural atracção dos adolescentes para correr riscos e testar limites: "Sentimos que os pais estão mais permissivos, trabalham mais, estão menos horas em casa. Há uma alteração ao nível da definição de permissividade e consequências." Um exemplo comum? O seu filho chegou a casa depois da hora combinada. Em vez de gritar, explique--lhe que existe uma hora a partir da qual é perigoso andar sozinho. No fim-de- -semana seguinte não o deixa sair, ou aperte ainda mais o horário. "Os pais devem ter os seus valores, ideiais e princípios e aplicá-los. Se isso passar pela proibição, que o façam, mas pessoalmente, acredito que se deve é falar verdade, não escamoteando a parte boa dos comportamentos só porque queremos enfatizar o risco", defende Mário Cordeiro.

Para a psicóloga Joana Amaral Dias, que trabalhou em campanhas de prevenção, acredita que esta é uma idade em que os riscos também são necessários. "Não são o papão que alguns pintam. Por exemplo, é importante apresentar o sexo não como um risco mas como uma coisa que é enquadrada nas relações e, a partir daí, focar a importância da protecção. Os pais não controlam tudo, não cobrem todos os minutos das vidas dos filhos e ainda bem, porque eles também precisam dos riscos para ganhar autonomia."

Afastamento excessivo dos pais (não o que é suposto à medida que o adolescente vai guardando o direito à sua intimidade e privacidade), quebra do rendimento escolar ou situações de isolamento ou agressividade em casa são sinais que devem ser seguidos com cuidado pelos pais, alertam os especialistas. Em alguns casos poderão motivar acompanhamento clínico. Mas o problema não é só dos filhos, sustenta Marta Pedro: "Pais que se sentem sistematicamente incompetentes podem precisar de ajuda. O processo terapêutico é mais rápido se for familiar." com Joana Azevedo Viana



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