Vanessa regressa

Memória de um cinzeiro

por Ana Sá Lopes, Publicado em 26 de Março de 2010   
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Tenho passado os dias agarrada a um cinzeiro de cobre que assenta num suporte de madeira. É tudo o que restou de um cinzeiro de pé alto que foi um objecto-chave da minha educação: porque estava sempre junto ao meu avô e, diz-me a memória selectiva, um dos primeiros trabalhos infantis que me deram foi o de despejar aquele cinzeiro.

A sala onde este cinzeiro e eu pertencemos tinha sempre muita gente e estava continuamente atravessada por nuvens espessas de fumo e, lamento chocar os meus contemporâneos antitabagistas empenhados, cheirava prodigiosamente bem. Talvez por isso, porque era tudo tão evidente e claro, o tabaco tem um valor descomunal no meu ratio pessoal de cheiros de infância: menos que o cheiro da terra molhada de manhãzinha, mais que o cheiro do sargaço na praia, tanto como o absolutamente perturbador cheiro da humidade no ar durante todo o ano.

É quase transcendental explicar isto à Vanessa. Ela tinha a obrigação de se lembrar de como éramos todos nós no século XX mas, como a maior parte das pessoas, resolveu esquecer. Tem vagas memórias tão, tão selectivas, que já nem ela hoje tem consciência de que é de outro tempo. Cada vez que fala com os novos amigos jovens manuseia o grande apagador. Nas miudezas como nas grandes questões, a história é uma intromissão no sossego da memória selectiva e o historiador o mais chato dos homens na terra.

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