PRIMEIRO PLANO

O meu amigo John Wayne

por Paulo Tunhas, Publicado em 24 de Março de 2010   
Esperamos que os actores se comportem de acordo com o que nos habituaram, com o que acabou por se tornar, para nós, o seu carácter
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Aos quase 50 anos, uma pessoa que se levante muito cedo e passe o dia a ler e a escrever chega à noite com os olhos cansados. Aconteceu-me, e perdoava a coisa, não fosse um grave problema que me transformou, para pior, a vida. Na cama, as letras dos livros tendem a ficar muito pequeninas e a confundirem-se umas com as outras, o que acaba por induzir uma vaga sonolência, e às tantas já não se sabe quem matou ou quem ama, e porquê, se acaso há razão. Uma tristeza. Romances, aparentemente, de agora em diante só nas férias.

O que fazer? Televisão não, é claro, porque é quase certo aparecer à hora fatal o primeiro- -ministro a queixar-se de bullying por parte da oposição ou um intelectual de rosto humano que aprecia que apreciem ele gostar de futebol e ser perito em arbitragens. Por mim, acabei por encalhar nos filmes. Nos filmes todos, do tempo do mudo ao último Óscar. Descobri-me, de repente, a rever amigos, e a fazer alguns, poucos, novos. Mas sobretudo a rever amigos: John Wayne, Jimmy Stewart, Robert Mitchum. E a tentar perceber por que é que, por exemplo, nunca fui, e não sou, amigo de Henry Fonda.

Chego assim ao essencial. Se não vi todos os mais de duzentos filmes de John Wayne, vi sem dúvida um bom quarto deles, desde o óptimo "The Big Trail", de Walsh (de 1930, 9 anos anterior ao célebre "Stagecoach" de Ford), até ao último, "The Shootist", em que ele está, como na vida real, a morrer de cancro, e Jimmy Stewart é o médico que Wayne vai procurar. Conheço muito bem John Wayne, de cavalos, navios e aviões, e tolero muitas variações ao personagem habitual, que nunca é, é claro, o mesmo. Tolero, por muito boas razões, a quase malignidade do Ethan de "The Searchers", e tolero até o xerife bêbado de dois dos últimos, e maus, filmes.

Mas há limites. Há um filme de Cecil B. de Mille, "Reap the Wild Wind", de 1942, em que Wayne é praticamente cobarde. Um desastre moral que acaba mal. O choque disto é difícil de exprimir. É mais ou menos como uma versão de Medeia em que ela fosse adepta de um "casamento aberto" e alegremente levasse a prole a lanchar a casa da amante do marido. Não se fazem coisas dessas aos mitos. Menos ainda aos mitos amigos.

A verdade é que os actores - alguns - são nossos amigos, e desejamos que as coisas lhes corram bem. Esperamos que se comportem de acordo com o que nos habituaram: de acordo com o que acabou por se tornar, para nós, o seu carácter. E não gostamos quando não é assim. O que, apesar da puerilidade, até se percebe. É uma espécie de prova de fidelidade.

E agora, se me dão licença, vou ali ter com o W. C. Fields, um conhecimento recente. It ain't a fit night outside for man nor beast.

Professor do Departamento de Filosofia da Universidade do Porto

Escreve à quarta-feira


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