Urbanismo

As cidades são pouco femininas

por Kátia Catulo e Marta F. Reis, Publicado em 23 de Março de 2010   
O Porto é masculino e Lisboa feminina, dizem os especialistas. Oeiras também, acrescenta Isaltino Morais. Em Seul, o género mudou a cidade
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Os residentes de Seul repararam nas mudanças quando os separadores nos parques de estacionamento foram pintados de cor-de-rosa. Estava-se em 2007 e daí para a frente aqueles seriam lugares exclusivos para mulheres. A iniciativa ganhou ainda mais fôlego com a construção de sete mil casas de banho públicas exclusivas para o sexo feminino e passeios especiais, lisos e sem brechas, para evitar o incómodo bem conhecido da calçada portuguesa para quem usa saltos altos.

O investimento de 450 milhões de euros (708 mil milhões de wons) para tornar a capital da Coreia do Sul a primeira cidade amiga das mulheres recebeu esta semana o carimbo das Nações Unidas. Na primeira Assembleia Mundial das Mulheres Urbanas, que este fim-de-semana serviu de arranque à quinta sessão do Fórum Urbano Mundial, ONU-Habitat e Seul assinaram um memorando de entendimento para promover o desenvolvimento de cidades "women-friendly".

Tornar as cidades mais inclusivas para as mulheres é um dos temas em debate no fórum. Em Portugal, as ideias de Seul colhem pouco ou nenhum entusiasmo. Só o conceito provoca arrepios nos dois sexos. Sejam eles e elas autarcas, arquitectos ou olisipógrafos. A começar pelo presidente da câmara de Cascais, António Capucho, que recusa o debate, sob pena de suscitar "fundamentalismos desactualizados". A continuar pela olisipógrafa Marina Tavares Dias que não quer ser encarada como uma "espécie em vias de extinção e a necessitar de cuidados especiais". E a terminar no arquitecto Alexandre Marques Pereira que nunca pensou nas cidades como lugares para homens ou mulheres.

Mas então se não faz sentido falar em cidades "women-friendly" , será que há alguma lógica ao se identificar cidades mais femininas do que outras? Se a pergunta é essa, o caso muda de figura. E muda tanto que se acaba por cair nas velhas diferenças entre Lisboa e Porto. Não tem nada a ver com regionalismos, avisam os especialistas. "As cidades têm personalidade e provocam reacções nos visitantes e habitantes", esclarece o arquitecto Alexandre Marques Pereira. E Lisboa é feminina. Porto é masculino. É quase consensual.

Os motivos para isso são muitos - tradição, arquitectura ou estética, tudo vale para justificar porque uma cidade tem o seu lado feminino ou masculino mais desenvolvido. Para um arquitecto, as explicações só podem ser colocadas no plano urbanístico. São as cores e as formas que dão corpo à capital: "Os edifícios são redondos, a arquitectura é dócil, a luz é quente, os monumentos são brancos", defende Alexandre Marques Pereira. O Porto, por seu turno, é de basalto, tem uma arquitectura industrial e é fechada. Mas Lisboa, que até ao 25 de Abril teve uma estrutura alinhada ganhou nas últimas décadas vícios de homem, alerta o arquitecto: "A pressão e o caos urbanístico é algo muito masculino." E porque é que o mau planeamento tem de ser uma característica dos homens? Alexandre Marques Pereira tem resposta para tudo: "É um lugar-comum, mas sabemos todos quem é arruma e quem é que desarruma tudo lá em casa."

São tudo estereótipos, diz a olisipógrafa Marina Tavares Dias que encontra na tradição a origem para esses lugares-comuns. Lisboa ganhou fama de mulher por ser cosmopolita e Porto reputação de homem por ser fechado e orgulhoso: "Isso não significa que não seja uma cidade acolhedora e protectora como a maioria dos municípios do norte."

Rivalidades à parte, há cidades que são femininas de caras. É o caso de Oeiras, garante o presidente da câmara Isaltino Morais. "É uma cidade de espaços verdes, passeios marítimos, uma cidade de esplanadas e parques. Logo, é uma cidade bonita, e a beleza é feminina." Em Seul, o género reflecte-se nas políticas: vão ser criados 28 mil postos de trabalhos para mulheres que abandonaram as carreiras para casar ou cuidar dos filhos. Directivas apresentadas no final do ano passado incluem ainda melhorar as condições das mulheres nos apartamentos e locais de trabalho. O lema é que a felicidade delas é o caminho para a felicidade de todos. Em Portugal seria pelo menos alegria da maioria: nas últimas estimativas do INE, de 2008, havia mais 6% de mulheres no país do que de homens. Em Lisboa e no Porto, com 2,02 e 1,28 milhões de habitantes, a diferença sobe aos 8%.


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