Estados Unidos

Quase lá: reforma de Obama presa por detalhes

Publicado em 22 de Março de 2010   
Obama pode ontem ter entrado para a história ao reformar aquilo que nenhum presidente conseguiu nos últimos 50 anos: a saúde
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A aprovação da reforma do sistema de saúde proposta pela administração de Barack Obama estava ontem presa por detalhes. À hora de fecho desta edição, e numa pouco habitual reunião dominical, a Câmara dos Representantes continuava a discutir os pormenores legislativos daquela que, se aprovada, ficará no pódio das mais importantes políticas públicas da história América. A reforma de 940 mil milhões de dólares (700 mil milhões de euros) para os próximos dez anos vai garantir cuidados de saúde a 95% dos americanos, mas continua a ter a oposição da maioria (54%).
Ao longo do dia, os responsáveis do Partido Democrata foram dando indicações de que já teriam na mão os 216 votos necessários para a aprovação da reforma. Mas era demasiado cedo para festejar. Suspeitando da linguagem vaga do projecto-lei no que diz respeito ao aborto, um número significativo de congressistas democratas pró-vida entrou em negociações com a Casa Branca. Este grupo de representantes fazia depender o seu sentido de voto da emissão de uma ordem executiva do presidente Obama estipulando a proibição do financiamento de abortos no sistema de saúde com o dinheiro dos contribuintes. Garantido o apoio destes democratas antiaborto, o projecto estava pronto para ser aprovado no Capitólio.
Apesar de incorporar vários programas federais como o Medicare – para pessoas com mais de 65 anos – e o Medicaid – assistência a famílias desfavorecidas –, a prestação de cuidados aos americanos está altamente dependente da existência de seguros de saúde. Isto faz com que o sistema de saúde dos Estados Unidos seja menos conhecido pelos seus méritos (a indústria vale 17%da economia americana) do que pelos seus falhanços: mais de 46 milhões de pessoas estão fora de um sistema que dá um rombo de 2,2 biliões de dólares por ano nos cofres do Tesouro. 
Nos últimos anos, os custos do sistema de saúde dispararam de tal modo que  as seguradoras e os hospitais são acusadas de combinar preços. Na base desses aumentos, defendem os últimos, está o constante declínio das condições de saúde dos americanos, cada vez mais vítimas de doenças crónicas.  
Mesmo reconhecendo maioritariamente a insustentabilidade do status quo, milhares de manifestantes organizaram acções de protesto em Washington. Artilhados com cartazes e bandeiras, adoptaram o sugestivo slogan “Kill the Bill”. Abill não morreu e a batalha dos activistas também não. Há muito mais em jogo: “Isto não é sobre o sistema de saúde. Isto é sobre controlo”, mostrava um cartaz.
Para os republicanos, muitos eleitores independentes e também alguns democratas, o que está em causa é o próprio ADN da república americana. Seja na reforma saúde, ou na reforma do sistema financeiro, há duas visões em confronto: de um lado, aqueles que em nome de uma maior coesão social e melhor regulação, defendem o reforço de poderes de Washington; do outro, os que não admitem sacrificar a liberdade e iniciativa individual em nome de um governo grande.
No caso de ter passado na Câmara, a reforma é uma grande vitória política para Obama. Mas só lá mais para Novembro, por altura das eleições intercalares para o senado e para o Congresso, é que se vai saber se o presidente conquistou, ou não, os americanos.


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