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Os executivos não dormem. Correm maratonas

por Vanda Marques , Publicado em 20 de Março de 2010   
Correm 160 km. Vomitam. Chegam a partir dentes. Mas não desistem. São maratonistas amadores e profissionais de sucesso. Este domingo, muitos vão estar na Meia-Maratona de Lisboa
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Os rins deixaram de funcionar. As dores eram insuportáveis e o calor asfixiante. Mesmo assim Tiago Dionísio não desistiu. Nem sequer parou nas tendas de apoio médico. O analista financeiro de 36 anos estava determinado a acabar a ultramaratona de 160 km. Fez a prova em cerca de 29 horas e nos últimos 50 km nem conseguiu correr. Caminhou, com uma ideia fixa: "vou chegar ao fim."

Estávamos em 2006, Tiago era o único português numa prova onde metade dos participantes ficou pelo caminho por causa dos 40ºC que se faziam sentir na Califórnia norte-americana. "Percebi naquele momento que a cabeça é muito mais forte que o corpo. Não podia desistir", recorda.

No fim da meta não o esperava um prémio milionário. O que o fazia correr era a ideia de superar os seus próprios limites. As semelhanças entre profissionais de sucesso e maratonistas amadores são maiores do que pensamos. É uma espécie de equação do êxito: se conseguir fazer uma maratona terá potencial para ser um executivo de topo. Em Portugal não existem números, mas o i sabe que em grandes empresas é bem visto pelos gestores o facto de superarem a mítica prova de atletismo.

A corrida é cada vez mais um desporto de elite, como revelou, em 2008, o jornal francês "L'Equipe". A propósito da ida de 3 mil franceses à maratona de Nova Iorque, o desportivo referia que vários estudos indicam que a maratona é o teste final dos gestores de topo. Nos Estados Unidos, esta é uma noção bastante comum como explicou Ted Kennedy, presidente da organização CEO Challenges, ao site "MarketWatch". "São pessoas muito bem sucedidas, competitivas, que adoram ter diferentes objectivos para cumprir, por isso vão às maratonas - a grande prova física."

Tiago Dionísio é um deles. Solteiro e analista financeiro num banco, já fez 125 maratonas e ultramaratonas desde que aos 19 anos começou a correr com regularidade. O recorde impressionante dá uma média respeitável de 15 provas por ano. "Assumo que sou viciado nas corridas. Quero testar os meus limites. Não gosto do que é confortável", diz o jovem que treina seis vezes por semana.

As férias de Tiago acabam por ser dedicadas às maratonas e os dias de trabalho têm sempre espaço para o treino. Em 2006, quando chegou ao fim da ultramaratona na Califórnia passou a ser a quarta pessoa no mundo a completar duas ultramaratonas no mesmo ano. O feito torna-se ainda mais impressionante se pensarmos que as fez seguidas: uma semana antes tinha estado noutra, de 89 km, na África do Sul. Mas o esforço foi demasiado para o corpo.

O pouco tempo para descansar misturado com uma longa viagem de avião, que o desidratou ainda mais, fez com que o resultado da aventura fosse uma experiência entre a vida e a morte. "Cheguei a Lisboa e fui para o hospital. Fiquei internado três semanas e os médicos disseram que podia ter morrido. Só não aconteceu porque estou em boa condição física e sou jovem", conta. "Foi uma lição. Aprendi que não era um super-homem", diz o analista financeiro, para logo depois rematar: "tive azar com o tempo, estava tanto calor que metade das pessoas desistiram."

Combater o stress Quem acha que o hobbie da corrida prejudica a carreira profissional tem de olhar com atenção para a lista de maratonistas amadores portugueses. Guilhermino Rodrigues, presidente da ANA Aeroportos, o ex-secretário de Estado da Comunicação Social e professor universitário, Arons de Carvalho, o Chairman da Vodafonde, António Carrapatoso, e o primeiro-ministro José Sócrates não são propriamente conhecidos por não trabalhar.

Na lista encontramos uns com mais quilómetros que outros, é certo, mas todos correm. Por exemplo, José Sócrates fica-se sempre pela minimaratona, mas faz parte da lista de políticos que como Tony Blair, Nicholas Sarkozy, François Fillon, John Howard, José Luis Zapatero ou Bill Clinton, não abdicam da corrida.

Clube do Stress Não são apenas homens que fazem parte da lista dos que se dedicam a correr uma maratona (42,195 km), uma meia-maratona (21,1 km) ou mesmo a mini (7 km). Sofia Fernandes já fez sete maratonas e uma ultramaratona e, tal como Tiago Dionísio, começou a treinar com o Clube do Stress. É provável que já tenha ouvido o nome do grupo. Sempre que vemos José Sócrates a atravessar a ponte 25 de Abril lá está ele com uma t-shirt azul deste clube que transformou as ruas de Lisboa em ginásio.

Criado na década de 80 por três amigos, Arons de Carvalho, o jornalista José Pedro Castanheira e o médico João Paços, o clube não tem treinador oficial, ginásio ou partido político. É um grupo de amigos que gosta de correr e tem encontro marcado todos os domingos em Belém, às 9h30. Mas cada atleta amador sabe que se quer correr uma maratona não pode só aparecer ao domingo. "A preparação começa seis meses antes da prova e implica treinos regulares, entre quatro a seis vezes por semana", explica o secretário geral do Clube do Stress, Carlos Paiva.

Quando começaram, estavam longe de imaginar que teriam uma mailing list com mais de 200 nomes e com presença em muitas maratonas internacionais. "Na primeira vez que fui com o Zé Pedro para correr à volta da pista dos Estádio Universitário, fiquei cansado só com os 500 metros", conta Arons de Carvalho. "Mas o hábito foi crescendo e hoje já fiz perto de uma centena de meias-maratonas e quatro maratonas".

O ex-secretário de estado da comunicação social e antigo deputado do Partido Socialista não vai faltar à meia-maratona de Lisboa, que se realiza amanhã. E já tem companheiro de corrida: o deputado do CDS-PP, Mota Soares. "Vamos juntos, mas vou ter de correr mais devagar para o acompanhar", conta, sem pretensiosismo. O popular não tem tanta experiência como o socialista.

Sofia Fernandes, de 34 anos, não vai correr na prova de domingo porque tem um baptizado. Mas no próximo mês estará em Paris para mais uma maratona. Já lá vai o tempo em que esta mãe de três crianças, casada, e consultora estratégica, vomita nas provas. A primeira vez que fez uma maratona, em 2003, na Alemanha, acreditou que ia morrer. Sem dramatismo. Mas mesmo assim não desistiu. "Sou teimosa e era inexperiente. Ia comendo e bebendo tudo o que me davam. Resultado: tive uma paragem de digestão e no final vomitei tudo", recorda.

O médico Renato Graça, antigo maratonista, desaconselha a ingestão de alimentos durante a corrida. "O mais importante é beber, sempre que possível, água ou bebidas energéticas com glucose, para não desidratar." Relembra ainda que nestas provas as pessoas emagrecem em média três quilos. "Uma maratona é como uma pequena grande sova. Há traumatismos nos músculos, desidratação e a produção de produtos tóxicos, como o ácido lácteo, que causa cãibras." Mas o lado psicológico também é uma das maiores dificuldades. Renato Graça conta que chegou a fazer maratonas e chegar ao fim sem se lembrar de partes da prova. "Numa das vezes, fiquei em primeiro lugar e só me apercebi porque os jornalistas vieram falar comigo. Tinha ultrapassado os outros concorrentes e não dei por nada."

Sofia Fernandes defende que o lado psicológico é o mais difícil nestas provas de resistência. A mãe de família, que na primeira gravidez correu até aos sete meses, diz que a fase do muro - como os atletas a apelidaram - é a mais dura. "É uma altura em que pensamos: 'Porquê?', 'O que é que eu estou aqui a fazer?' e coincide com os 35 km da prova." Carlos Paiva, secretário-geral do Clube do Stress, que tem 15 maratonas no currículo diz que o muro demora mais ou menos 10 a 15 minutos e é a prova de fogo. "Só pensamos em como estamos cansados e que não vamos chegar ao fim. Depois passa aquela sensação e vemos que falta tão pouco."

Além da paciência, a teimosia é uma das características dos maratonistas, assegura Sofia. Quando fez a sua única ultramaratona de 56 km, em África, trouxe um novo visual para Lisboa. O marido reencontrou-a com os dentes da frente partidos e a cara inchada. "Não foi assim que te deixei no aeroporto?", brincou. Sofia recorda o episódio a rir. "Estava tão cansada que tropecei e cai de cara no chão. Parti os dois dentes da frente, esfolei-me toda, mas não desisti." Carlos Paiva tem uma história parecida. Aos 30 km da maratona de Chicago ouviu um rasgão na perna e sentiu uma dor intensa. "Fui a uma tenda de assistência médica. Depois de me massajarem, perguntaram se queria continuar. Eu disse que sim. Eles responderam: 'Good'." O advogado de 60 anos concluiu a prova - a correr.


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