Marginalidade

Ketamina. A nova droga das festas é um anestésico para cavalos

por Clara Silva, Publicado em 20 de Março de 2010   
Dois jovens britânicos morreram esta semana por consumirem "miau miau". Por cá o que está a dar é "Special K", mas a PSP desconhece
Opções
a- / a+

Tiago, um estudante de 23 anos, nunca se esquecerá do jantar em casa de um amigo que se transformou na festa mais caótica da sua vida. Depois do arroz chau-chau, a sobremesa veio numa bandeja e foi cozinhada à sua frente: ketamina, um líquido transparente usado como sedativo de cavalos. "Um amigo tinha arranjado o frasco num veterinário e cozinhou o líquido numa frigideira até ficar em pó", conta Tiago, que já tinha experimentado o fármaco como droga recreativa em festas de música electrónica.

Quando a ketamina ficou pronta a ser inalada, foi servida numa bandeja às cerca de 20 pessoas da festa, todas entre os 18 e os 25 anos. "A maior parte nunca tinha experimentado, nem sequer sabia que aquilo existia", recorda. "Mas este amigo conseguiu convencer toda a gente a consumir." Cinco minutos depois, o tempo que a ketamina demora a fazer efeito por via nasal, muita gente cambaleava pelo corredor do andar das Avenidas Novas, em Lisboa, e entornava cervejas sem querer. "O efeito é como se fosse uma bebedeira psicadélica", diz Tiago, "em doses médias ou altas sentimo-nos descoordenados, andamos em câmara lenta e ouvimos sons distorcidos. É uma viagem num túnel um bocado estranho."

Entre amigos, Tiago refere-se à ketamina como catamina, cata, catarina ou até cavalo. "Oh Catarina, vais dar na catamina?", brinca, como costuma fazer com a namorada de um amigo, também ela consumidora habitual. Em Inglaterra e nos Estados Unidos, a droga ganhou vários nomes, entre eles o de cereais e chocolates: K, Special K, Kit-Kat ou vitamina K.

Na festa chamavam-lhe cata e os efeitos foram sentidos por todos. "A droga que é vendida na rua leva um corte qualquer com Aspegics e outros pós. Esta foi cozinhada ali mesmo, vinha pura e, por isso, era muito forte", conta Tiago. Não se lembra de muitas partes da noite, até porque a ketamina faz com que o "cérebro fique muito desorganizado e desassociado do corpo". Mas de um episódio não se esqueceu: "Quando abri a porta de um quarto muito pequeno, estavam 20 pessoas a dançar a 'Lambada' em cima da cama e da secretária. O meu amigo tinha a bandeja numa mão e um cartão para fazer riscos na outra. Foi o caos."

Ketamina vs. miau-miau

Em pequenas quantidades, a ketamina tem um efeito estimulante como o ecstasy e a cocaína. É cada vez mais procurada em discotecas. Segundo o relatório publicado em Fevereiro pelo Órgão Internacional de Controlo de Estupefacientes (OICE), o tráfico de ketamina está a crescer na Europa, principalmente em Espanha e Inglaterra. Em Portugal não há dados oficiais, mas segundo Paula Andrade, do Instituto da Droga e da Toxicodependência (IDT), "há dois anos tivemos registos de consumo". Ao contrário do "miau-miau", um fertilisante de plantas que matou esta semana dois jovens britânicos e encheu capas de jornais: "Não sabemos de nenhuma ocorrência de consumo de miau-miau nem tivemos pedidos de ajuda de nenhum hospital." Quanto à ketamina, o IDT distribuiu em 2008 postais gratuitos com informações sobre os efeitos da substância, mas o consumo ainda não tem "relevância estatística".

A droga de Madonna

Na última década, o consumo deste químico triplicou no Reino Unido, tornando-se muito popular junto das classes altas. Não que a droga seja cara e glamourosa, ou não fosse um tranquilizante muito usado em cavalos e também em pessoas com dores agudas. Um grama custa entre 15 e 20 euros, menos de metade do preço da cocaína, mas os seus efeitos são mais pesados.

Em 1998, Madonna confessou à revista "Q" que não percebia porque é que nas discotecas britânicas ainda preferiam consumir ecstasy: "A ketamina é a grande droga aqui [nos EUA]. É como se nadasses para fora do teu corpo sem saber se vais acordar de manhã." Na mesma entrevista, revelou também que o seu álbum "Ray of Light" soaria melhor sob o efeito de drogas.

Em 2006, o consumo de ketamina já era tão preocupante no país, que o governo britânico ilegalizou a substância e a sua posse passou a ser punida com dois anos de prisão. Em Portugal "só pode ser vendida com receita médica", explica Paula Andrade, do IDT. Fora isso, não há legislação adicional.

Special K

Joana, 22 anos, estudou dois anos em Londres e foi lá que experimentou a "Special K" com amigos da faculdade. "Devo ter consumido dez vezes no tempo em que lá estive", faz as contas, "mas sempre em doses muito pequenas". Em Portugal nunca mais consumiu, até porque está a acabar o mestrado e tem de "andar mais calminha". "Nunca achei divertido, mas tomava de vez em quando para dançar em festas dubstep [um tipo de música electrónica]."

Há pouco tempo, um amigo dela caiu no "K-Hole", um estado de inconsciência profunda alcançado pelo consumo de grandes quantidades de ketamina, também retratado na música "Special K" dos Placebo. "Foi apanhado pela polícia inglesa e tiraram-lhe a carta de condução. Agora vive com os pais e está a recuperar do vício psicológico."

A droga do Vietname

Lucindo Ormonde, director do serviço de anestesiologia do Hospital de Santa Maria, em Lisboa, considera a ketamina "o fármaco ideal num cenário de catástrofe". A substância, desenvolvida em 1962 como um anestésico dissociativo (que separa a mente do corpo), foi muito usada na guerra do Vietname, antes de ser usada para fins veterinários. "Injectada intra-muscularmente tira as dores de imediato e provoca inconsciência sem retirar a capacidade respiratória", explica. Na anestesia, a ketamina "estava praticamente abandonada", mas nos últimos está a "ressurgir em força com novas aplicações e muito bons resultados, principalmente a nível pós-operatório", afirma o anestesiólogo. Os efeitos anestésicos e analgésicos da ketamina duram cerca de uma hora, dependendo da dose administrada. "É utilizada como sedativo em crianças e adultos para controlar dores crónicas e agudas."

Inalada como droga alucinogénia pode conduzir a "problemas físicos e mentais profundos", explica o médico. Alucinações, alterações de visão, falta de ar, amnésia, dificuldade em controlar os movimentos fazem parte da lista. "O consumo inapropriado deste fármaco misturado com álcool pode também causar overdose."

No hospital, não tem conhecimento do desaparecimento de frascos de ketamina para venda ilícita: "Mas estas coisas não acontecem nos hospitais. O mercado negro é que deve andar fluorescente com isso."

Tráfico em Portugal

O relatório anual do OICE refere a multiplicação de sites de venda ilícita de ketamina, sobretudo na Ásia, onde os maiores consumidores têm entre 14 e 25 anos. Em Portugal, segundo o gabinete de imprensa da PSP, "não está registada qualquer apreensão da droga e a PSP desconhece a sua utilização". A verdade é que existe.

"É mais difícil de arranjar do que MD [ecstasy] ou coca", diz Diogo, 24 anos, baterista. "Mas arranja-se. Tinha de percorrer muitos contactos e falar com muitas pessoas com antecedência se quisesse para uma festa." A primeira vez que consumiu foi em casa, num jogo de poker entre amigos. "Um deles tinha. Dei um risco mas não bateu. Depois alguém entornou no tapete de poker e tivemos de cheirar até aquilo sair", conta. "Quis levantar-me mas já não consegui, não sentia as pernas nem os braços, aquilo é um bocado delirante."

Ao todo, Diogo consumiu ketamina três vezes, duas delas em festas trance. Tiago também experimentou pela primeira vez numa festa ao ar livre há 3 anos. "Estava com um amigo que na altura traficava e tinha bastantes gramas para vender", recorda. "Foi a droga que consumimos mais, mas também misturámos MD, speed e ácido... um grande cocktail químico."



Os nomes usados nesta reportagem são fictícios



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close