Entrevista
Maria de Medeiros: "Quando li o guião de 'Pulp Fiction' pensei: 'É genial'"
por Sílvia Caneco, Publicado em 20 de Março de 2010
Actriz e cantora, Maria de Medeiros acaba de lançar o segundo álbum. Ao i explica como conheceu Tarantino e porque deixou Hollywood
Ao ouvi-la atender o telefone num "allô" meloso é difícil não lembrar Fabienne a segredar ao ouvido de Bruce Willis numa cena de "Pulp Fiction". Em Paris, Maria de Medeiros fala pausadamente, no tom de canção de embalar que transportou para o novo álbum, "Penínsulas e Continentes" - onde estão Zeca e Godinho, mas também Coppola e o cinema e toda a sua vida em movimento. A chamada será interrompida várias vezes: pelo telemóvel, pela campainha, outra vez pelo telefone. Maria de Medeiros, 44 anos, duas filhas, actriz, realizadora, cantora ou "actriz que canta", como gosta de se definir, só sabe trabalhar assim: a confusão é a sua casa. Tanto que acha que estar um dia a trabalhar com Tarantino outro num filme francês, um dia num disco meloso, outro, quem sabe, num de música electrónica, não é tão surpreendente como pode parecer. "As coisas que faço não são assim tão longínquas."
Sendo filha de maestro [Vitorino de Almeida], a música era inevitável?
Acordávamos e já estava o meu pai a fazer exercícios ao piano. Ele é um grande historiador da música, sempre fez questão de nos mostrar o que gostava e de contextualizar o que estávamos a ouvir.
Passou a infância em Viena. O que ouvia?
Até aos 9 ou dez anos só ouvi música clássica. Sabia toda a história da música e tinha os meus compositores favoritos, como Stravinsky. Mas não sabia nada de jazz, nem de pop, nem de rock.
Isso não era chato para uma criança?
Não era chato porque na Áustria isso não é anormal. Só percebi que era estranho quando cheguei a Portugal e vi que tinha descoberto outros tipos de música muito mais tarde que as outras pessoas da minha idade.
O seu pai é crítico do seu trabalho?
Pelo contrário, é até muito tolerante.
Trocam ideias para os seus discos?
Na verdade, o meu pai é sempre a última pessoa a descobri-los. [risos]
Ele gostou deste novo álbum?
Não me disse nada, nem sei se ouviu.
Receia que ele lhe diga que não gostou?
[risos] Ele é uma figura que me intimida muito. Uma das razões pelas quais iniciei tão tarde esta aventura musical é que me sentia intimidada pelo meu pai e pela Ana, a minha irmã mais nova [violinista e compositora]. Eles têm anos e anos de estudos musicais e eu não me atrevia a entrar na música assim, como leiga.
Sente-se uma cantora?
Sou mais uma actriz que canta.
Transportou a actriz para este disco?
Cada criação partiu de um processo cinematográfico. No "Il Padrino", do Nino Rota, por exemplo, quis que a canção passasse mesmo a atmosfera do filme do Copolla, sentir os cabedais antigos, o aroma do whisky, o cheiro do charuto, os fatos dos gangsters.
Há algum género musical que não se atreva a tentar?
Quase toda a música que me interessa é a que está aberta. Passei agora algum tempo em Montreal e fui a muitos concertos de música electrónica. Fiquei vidrada naquela dimensão experimental e não me parece uma coisa assim tão longínqua do que estou a fazer.
Um dia poderemos ouvi-la num disco de música electrónica?
Fiquei cheia de ideias. Posso bem vir a fazer qualquer coisa entre a música electrónica e o jazz. Porque não?
Estudou Filosofia e Belas-Artes. Como é que o teatro e o cinema apareceram?
De forma surpreendente. Costumo dizer que o culpado da minha carreira foi o João César Monteiro, porque foi ele que decidiu que deveria fazer o papel de protagonista no seu filme "Silvestre". Se sou actriz, é por puro fruto de um acaso. O acaso deu-me óptimas recompensas.
Como é que o João César Monteiro a encontrou?
Era amigo da minha mãe. Tinha começado a fazer o "Silvestre" em exteriores com outros actores e quando chegou a meio não gostou. Só que entretanto já se tinha evaporado metade do orçamento. O Paulo Branco [produtor] estava aflitíssimo e o João César arriscou fazer tudo de novo com meio orçamento. Foi pela falta de dinheiro que fui lá parar.
Foi com o "Pulp Fiction" (1994) que se tornou conhecida do grande público. Como se chega a Quentin Tarantino?
Lá está, tudo por acaso. Conheci o Quentin num pequeno festival de cinema de autor em Avignon, França. Eram todos uns miúdos que vinham apresentar os seus filmes, feitos com poucos meios. Voltei a encontrá-lo na Mostra de São Paulo - um festival muito maior, verdadeiro paraíso dos cinéfilos - e um dia ele enviou-me o guião do "Pulp Fiction".
Aceitou logo?
Quando li pensei logo: "Isto é genial, não se parece com nada." Só não podia imaginar o êxito que o filme viria a ter, porque era tão atrevido, tão filme de autor... Com uma coisa completamente fora das normas ele provou que era possível encontrar um público gigantesco.
Era o Tarantino que conhecemos hoje?
Era o mesmo! Só que éramos poucos a conhecê-lo.
Ele conhecia o seu trabalho?
Ele interessou-se porque tinha visto o "Henry & June" (1990). Aliás, foi a partir desse filme que ele me recrutou a mim e depois à Uma [Thurman].
Como foi trabalhar com ele?
Ele é espectacular. É provocador e muito inteligente. Diz muitas vezes que começou a escrever porque queria ser actor: como não lhe davam papéis, começou a inventar pequenos papéis para si próprio. Ainda bem que não lhe deram esses papéis!
Ele é muito exigente com os actores?
Tudo nos filmes dele o é, sobretudo os seus textos, que são escritos e reescritos e têm grande qualidade literária.
Voltaram a falar-se?
Sim. E sigo com muita atenção o seu trabalho. Adorei o "Sacanas sem Lei", merecia outro Óscar.
Depois de "Henry & June" e de "Pulp Fiction" pensou-se que teria entrado definitivamente em Hollywood. Não aconteceu porquê? Não teve essa ambição?
Nunca tive o sonho americano. Nessa altura queria mesmo fazer o meu "Capitães de Abril". Hollywood é um mito: faz--se um filme interessante e depois recebem-se dez propostas que são a mesma coisa em pior. Entre estar em Hollywood a fazer coisas que não me interessavam e a fazer o meu filme, não tive dúvidas e não me arrependo.
Chegou a um ponto em que se pode dar ao luxo de escolher o que faz?
Sempre me dei um pouco a esse luxo. Mas, nada de ilusões, quando se é actor, mais do que escolher somos escolhidos.
Vive em Paris há mais de 20 anos, tem dupla nacionalidade. Portugal, onde fica?
Está sempre comigo. Sou muito pessoana: a minha pátria é a minha língua.
Nunca pensou viver cá?
A esta altura da corrida já sei que qualquer coisa pode acontecer.
Alguma coisa a irrita em França?
Zango-me muito com França. [risos] É uma sociedade muito machista, nem sei se depois da eleição de Sarkozy não ficou ainda mais misógina. Era muito amiga da Marie Trintignant e foi um choque brutal para mim a sua morte [em 2003].
Um caso de violência doméstica?
Foi morta pelo companheiro, de forma extremamente violenta, e quatro crianças ficaram órfãs por causa dessa brutalidade. O mais ridículo é que qualquer francês lhe dirá que isso é pior nos países latinos, mas não é verdade: os números dizem que aqui é duas vezes pior que em Espanha.
Era capaz de se aventurar no Parlamento, como a sua irmã, Inês de Medeiros?
Acho extraordinário o que ela está a fazer, mas é realmente uma coisa dela: a Inês tem uma vocação para a política que eu não tenho. Apesar de achar que na arte há muita política.
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