Assembleia da República

José Lello: "Parlamento não é a aldeia dos macacos"

por Nuno Aguiar, Publicado em 20 de Março de 2010   
O deputado sentiu a sua privacidade invadida pelos fotógrafos. Na resposta, Jaime Gama e a bancada socialista fecharam os computadores ao mesmo tempo
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Emails, livros de receitas, SMS para namoradas ou jogos de futebol. Os deputados da Assembleia da República estão fartos de serem alvo das objectivas indiscretas dos repórteres fotográficos. Ontem, o socialista José Lello foi a voz do descontentamento, queixando-se das imagens que estavam a ser captadas nos écrans dos computadores dos deputados.

O deputado socialista interpelou o presidente da Assembleia da República, alegando que este tipo de voyeurismo é inaceitável. Não satisfeito com a resposta, de Jaime Gama fechou o seu computador - sendo seguido por toda a bancada do PS.

Ao i, José Lello esclarece que nenhum incidente em particular desencadeou o seu protesto. "Estavam fotógrafos com teleobjectivas apontadas aos écrans dos computadores, o que poderia pôr em causa a privacidade dos deputados", explica. "Se os visitantes não se podem debruçar nas galerias, por que podem os fotógrafos? Aquilo não é a aldeia dos macacos."

O deputado, que é também presidente do Conselho de Administração da AR, afirma que nada tem contra contra os jornalistas. Mas a "a situação é que é perversa". "Até já se publicou um SMS que um deputado estava a enviar para a namorada", refere.

O centro da discussão é este: os computadores dos deputados são pessoais? Em resposta a José Lello, Jaime Gama defendeu que os computadores colocados nas bancadas não são pessoais. E reforçou que existem regras para o comportamento dos jornalistas, estando ao alcance dos deputados alterá-las. Lello não concorda com esta interpretação: "Mesmo sendo propriedade do Estado, os computadores são pessoais. O presidente usou um discurso escusado."

José Lello diz que, além dos emails e mensagens dos deputados que já foram publicados pelos jornais, por vezes os decotes das deputadas são visados por algumas objectivas. "Quase fazem mergulhos sobre os deputados. É vergonhoso, não podemos estar sujeitos a estes voyeurismos", afirmou José Lello ao i. O deputado não esclareceu, porém, se iria propor alguma alteração às regras de conduta dos fotógrafos.

Apesar de o deputado argumentar que o seu descontentamento está relacionado com uma violação da privacidade, ou acesso a conteúdos pessoais, há quem defenda que os parlamentares têm apenas medo do ridículo. "Os deputados são um bocadinho como o resto do país e passam metade do tempo no Facebook", diz ao i um deputado que preferiu não ser identificado. "Eles só fazem três coisas no computador: ver emails, brincar no Facebook e ler jornais. O verdadeiro medo é serem apanhados a fazer nenhum."


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