Críquete

O críquete nacional tem sotaque britânico e faz pausa para o chá das cinco

por Mariana Pinheiro, Publicado em 20 de Março de 2010   
Em Portugal há seis equipas de indoor e seis de outdoor, dois campeonatos renhidos e uma selecção orgulhosa
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Um grupo de homens em fato de treino enfrenta estoicamente o frio da noite de Loures em alta conversa e passo acelerado. Esfregam as mãos a exorcizar a adrenalina. Não há entraves que demovam paixões. Estas levam sempre a melhor.

Maria de Fátima não joga críquete, não quer. E da primeira vez que viu não gostou. "É uma coisa que primeiro se estranha, mas que depois acaba por nos dominar completamente", diz-nos, sorridente. Com 62 anos conserva traços juvenis. É a única mulher presente, a única portuguesa filha de pais portugueses, e é uma das responsáveis pela pausa mais importante do jogo: o chá das cinco. "Pode parecer estranho, mas sim, paramos para o chá", ri. Quando os treinos decorrem durante a tarde, no Verão, ao ar livre, ela prepara a preceito o acontecimento. "Lá na minha propriedade, perto de Albergaria, temos um club house onde fazemos o chá tipicamente inglês, com leite, acompanhado de scones com compotas, manteiga e chantilly. Sem chantilly não presta", diz, atirando para o ar uma gargalhada farta. "O críquete é um jogo muito sociável, muito cavalheiresco. Quando o jogo acaba, a conversa é outra. Já não querem saber do chá nem dos scones. É só cerveja e convívio."

Maria de Fátima é também uma peça fundamental num jogo de tradições. Explica-nos a colocação dos jogadores e o que fazem para conseguir mais pontos. Percebe da dinâmica como ninguém e a prová-lo estão os protestos que volta e meia lança em inglês para o meio do campo, irritada com uma jogada menos bem conseguida. Agora está reformada, para trás ficou uma carreira como tradutora. Sem querer, de vez em quando ainda lhe escapa um "jesus" de susto, em sotaque britânico bem carregado, quando a bola rebenta contra um dos painéis do pavilhão. Foi para Angola com seis anos e aos 15 rumou à África do Sul, onde conheceu Sandro Buccimazza, vice-presidente da Federação Portuguesa de Críquete. Estão casados há 33 anos. Em 1995, já depois do fim do apartheid e das primeiras eleições livres na África do Sul, voltaram para Portugal com os dois filhos que entretanto nasceram. Vinte anos antes, a vaga de retornados que abandonaram as antigas colónias após a independência foi também responsável por um boom do críquete em Portugal.

TRADIÇÕES "Sabe, para nós o críquete é como o futebol. Vivemos o jogo com a mesma euforia com que vocês vivem o desporto-rei", sorri Jayesh Popat, 42 anos, seleccionador nacional e tesoureiro da Federação Portuguesa de Críquete. "Agora jogo mais para matar saudades que por competição. O coração já não deixa, a qualquer momento vou ser operado", diz, solene, com Raj e Disha, de seis e quatro anos, pendurados nos braços e nas pernas a pedir atenção. "Espero que um dia ele venha a gostar disto tanto como eu", e aponta para o filho. Raj é pequeno, novo de mais para perceber a luta dos que ali se juntam, na Escola José Cardoso Pires, em Santo António dos Cavaleiros, todos os sábados, para não deixar morrer uma parte da tradição dos países de onde vieram. "Nasci em Moçambique e fui para a Índia estudar. Cheguei a jogar nos sub-19 lá, sabe? Depois vim para Portugal, já cá estou há 21 anos, e é com muita pena que não vi nenhuma evolução no críquete durante todo este tempo." Jayesh jogou pela selecção nacional entre 1991 e 1997, mas a falta de profissionalismo do críquete impediu-o de ir mais longe. Faltam apoios. "Quando não há raízes, tudo é mais complicado. Alguns portugueses filhos de pais portugueses ainda experimentam, mas acabam por desistir", suspira o comerciante da Amadora. "É um desporto com muitas ligações à Índia, ao Paquistão, à África do Sul, e à Inglaterra, claro." A selecção portuguesa de críquete tem 11 jogadores em campo. Oito têm obrigatoriamente de ter nacionalidade portuguesa e depois há ainda uma percentagem para residentes há três ou menos anos no país. Todos os que ali se juntaram naquela noite são descendentes de indianos, paquistaneses e ingleses. Não há nenhum com os dois pais portugueses.

AS ESCOLAS Carlo Buccimazza tem um ar inglês. Alourado, de olhos quase claros, é o capitão do Clube de Críquete de Oeiras, uma das seis equipas de indoor existentes em Portugal (há outras seis que jogam ao ar livre). É filho de Maria de Fátima, tem 30 anos e diz já ser velho para jogar. A afirmação é insólita quando na selecção nacional o capitão tem mais de 60 anos. "Felizmente há muitas crianças a interessarem-se pela modalidade. Muitas escolas organizam a semana inglesa e procuram mostrar aos alunos tudo o que é tipicamente inglês, da gastronomia ao desporto. E de vez em quando, requisitam os nossos serviços para irmos lá ensinar críquete aos miúdos", explica. Carlo dá aulas a cinco raparigas e nove rapazes em São Mamede, na Batalha, tal como Silkesh Deuchande, de 25 anos, que naquela noite alinhava pela equipa da escola onde também trabalha, a Gaspar Correia, na Portela. Ensina miúdos entre os seis e os 18 anos. Silkesh é o menino dos olhos de Maria de Fátima e foi considerado o melhor jogador do ano. Ultrapassou as 200 corridas. "Veio para cá sem saber nada e agora é um óptimo jogador. Aprendeu tudo na federação", diz, cheia de orgulho, a também secretária. Não há dinheiro que pague a boa vontade. As funções ficam todas em família, há motivação, mas falta o essencial: apoios de toda a espécie. "Nós gostávamos de fazer mais, mas é impossível. O Estado só dá dinheiro ao críquete se tivermos a modalidade espalhada pelo país, mas sem dinheiro não vamos a lado nenhum, não é? É uma pescadinha de rabo na boca", diz Carlo, sublinhando que os únicos apoios que recebem vêm de fora. "O International Cricket Council dá-nos 15 mil dólares (quase 11 mil euros) e paga-nos 80% das viagens. Tudo o resto fica por nossa conta: alojamento, alimentação, equipamentos...", queixa--se o capitão.

Já passa da meia-noite, os ânimos estão ao rubro e ninguém quer abandonar o recinto. O clube de Oeiras ganhou por 151 corridas, mais 39 que a equipa de juniores. "Aquilo lá dentro vai dar molho. Se falasse hindi, ia perceber porquê", assegura-nos Darpan, de 20 anos, que veio espairecer um pouco para o jardim. "Agora gritam, mas daqui a nada vão todos contentes beber cerveja e comer cachorros para a rulote lá em baixo", ri. Darpan não gosta de críquete. É a primeira vez que assiste a um jogo e não parece entusiasmado. A sua verdadeira paixão é o futebol. Maulik, 18 anos, tem uma opinião contrária à do amigo. "Adoro críquete, mas percebi que o futebol tem uma grande vantagem, dá para perder mais peso", sorri. A diferença percebe-se nas pequenas coisas. Ambos têm origens indianas. Maulik, que gosta de críquete, nasceu na Índia; Darpan, que prefere futebol, em Portugal. A senhora responsável pelo pavilhão perdeu a paciência de vez. "Vamos embora. A próxima vez não põem cá os pedantes." Para eles as horas não contam. Ficavam ali até o Sol raiar e a chuva desaparecer.


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