Reportagem
Destino: Real-Lyon. O fim do sonho de Florentino
por Rui Pedro Silva, Publicado em 20 de Março de 2010
Um título na final do Santiago Bernabéu seria a cereja no topo do bolo para os madridistas, mas o sonho acabou em pesadelo
A Liga dos Campeões desta temporada ganhou um significado especial em Madrid. A cada jogo que passava, os adeptos do Real sentiam que estavam a assistir a um fragmento da final. O sonho era ganhar todos os jogos e, aos poucos, chegar à final de 22 de Madrid, precisamente no Santiago Bernabéu.
Seria a chamada cereja no topo do bolo: conquistar a décima Liga dos Campeões em casa no ano em que se gastou mais de 200 milhões de euros em reforços, com Cristiano Ronaldo e Kaká à cabeça. Depois de uma passagem fácil pela fase de grupos, a eliminatória com o Lyon era o primeiro grande obstáculo. A derrota em França por 0-1 não chegava para assustar e no dia do jogo, como é habitual, os principais diários desportivos optavam por autênticas odes às reviravoltas do passado. De manhã, a melhor altura para ir ao estádio levantar o bilhete comprado dois dias antes pela internet, já se respirava futebol nas imediações do Santiago Bernabéu. À porta da tienda, o nome das lojas dos clubes, uma equipa de exteriores de uma qualquer televisão testava os primeiros directos. Lá dentro, os principais destaques eram, como não poderia deixar de ser, os artigos de Ronaldo e Kaká. Ao abandonar as imediações do estádio (afinal de contas, faltavam mais de oito horas para o apito inicial), um artista de metro tentava aproveitar o aumento de tráfego para ganhar mais dinheiro.
Depois de dar uma volta por Madrid, com passagem pela conferência de imprensa de Carlos Carvalhal e Abel e os 15 minutos do treino leonino aberto à comunicação social, era altura de regressar ao estádio. A viagem de metro implicava a passagem por dez estações e uma mudança de linha. Durante o trajecto não foi difícil ter noção da distância que faltava percorrer para chegar ao Bernabéu. Quanto mais nos aproximávamos do ground zero, mais eram os adeptos com cachecóis, tanto do Real Madrid como do Lyon. O primeiro confronto, amigável claro está, opunha três japoneses a quatro franceses. De um lado da carruagem, os asiáticos estavam equipados a rigor, cada um com a camisola do seu ídolo (havia o 7 de Raúl, o 8 de Kaká e o 9 de Ronaldo). Os franceses, mais discretos na roupa, saltavam à vista, ou melhor, ao ouvido, pela forma como falavam. O único equipamento que traziam era uma garrafa de vodka, misturada com sumo de maçã, para atacar o frio.
Quando se sobe as escadas do metro, é impossível não dar pelo estádio. Luzes, milhares de pessoas, dezenas de autocarros com adeptos: não faltava nada. Numa das portas, dezenas de adeptos gritavam para antigas estrelas junto à entrada para o Palco de Honor.
Mais à frente, havia quem pedisse a uma jornalista, jovem e loura, para tirar uma fotografia. E depois havia cachecóis do Real Madrid, do Lyon e do... Sporting. Isso mesmo, a cada canto encontrava-se um adepto sportinguista que tinha aproveitado a oportunidade para ir ao Santiago Bernabéu. Até o presidente José Eduardo Bettencourt por lá andava.
ÂNIMOS QUENTES Já lá dentro, as bancadas iam-se vestindo cada vez mais de adeptos. Os onzes iniciais foram anunciados e Cristiano Ronaldo provocou a primeira grande explosão. A segunda veio com Raúl, que estava no banco. O cenário parecia um termómetro que acusava cada vez mais a subida da temperatura. Primeiro com uma tarja enorme da claque do Real que representava a Plaza de Cibeles, o local onde costumam festejar os títulos, com um recado especial: "Volveremos". Depois com o hino da Champions, um dos momentos mais emblemáticos de todos os jogos da prova. Mas o momento mais quente, literalmente, estava guardado para o apito inicial. Assim que Ronaldo tocou na bola, acenderam-se os aquecedores que existem por todo o estádio, por baixo dos holofotes. Se o vento pode tornar o jogo desagradável, especialmente para quem está perto de uma porta, o calor que emana daqueles originais aquecedores é suficiente para secar o cabelo. Lentamente.
Dentro das quatro linhas, o golo de Ronaldo, logo no início, fazia parecer que o Real ia ter uma grande noite europeia. Puro engano: Pjanic estragou os planos e fez os adeptos merengues abandonar o estádio mesmo antes do final anunciado pelo árbitro, que para os adeptos nem sequer foi culpado. "É caseiro, é caseiro", desabafava um espanhol.
A eliminação foi mesmo uma certeza e a desilusão uma constatação. No caminho para o metro, falava-se pouco e andava-se ainda menos. Das escadas de superfície até à plataforma demorou-se 23 minutos. E fala-se de pouco mais de trinta metros. Começava aí a expiação dos pecados merengues. "A culpa não é do treinador. Tantos milhões e nada."
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Destino: Real-Lyon. O fim do sonho de Florentino
Actividade em ionline