Bispos portugueses contactados pelo i não têm conhecimento de investigações de casos de abusos de crianças que envolvem padres portugueses.
Depois de esta semana o i ter divulgado o estudo do investigador da Polícia Judiciária (PJ) Pedro Pombo, onde as estatísticas da PJ dão conta de dez padres indiciados por abuso sexual de crianças em Portugal entre 2003 e 2007, os bispos portugueses comprometeram-se a seguir as recomendações do Vaticano.
Entre as 20 dioceses da Igreja Católica em Portugal contactadas, foi possível obter a reacção de 12 representantes até ao fecho da edição. Nenhum teve conhecimento de padres suspeitos de abusos de crianças neste período e apenas a diocese de Braga registou um caso: em 93/94, o padre da paróquia de Aveleda foi acusado de abusar de uma criança de 12 anos. O caso foi arquivado.
“Não tive conhecimento até hoje. Não posso dizer que um dia não virei a ter, mas até este momento não tenho conhecimento”, disse D. Ilídio Leandro, bispo da diocese de Viseu. Resposta idêntica deram os Bispos das dioceses da Guarda e de Bragança e os vigários-gerais e porta-vozes das de Lisboa, Porto, Coimbra, Algarve, Leiria, Lamego e Portalegre.
“São factos horrorosos dos quais tenho conhecimento apenas pela comunicação social. É uma vergonha, é um escândalo. Se é falado, é porque existe e é preciso acabar com esta vergonha da nossa Igreja”, acrescentou o bispo da diocese de Santarém, D. Manuel Pelino.
Das 20 dioceses portuguesas, o i apenas não obteve resposta em tempo útil de sete: Vila Real, Évora, Funchal, Aveiro, Beja, Setúbal e Viana do Castelo. Quanto à diocese de Angra, D. António Sousa optou por não responder.
O caso de Braga é o único de memória recente. “Sempre se declarou inocente e a população estava do lado dele. Foi para uma paróquia de Paris e hoje está na Alemanha”, disse fonte da diocese ao i.
A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) assegurou quarta-feira desconhecer qualquer um dos dez casos de padres indiciados pelo Ministério Público por abuso sexual de crianças em Portugal num total de 5128 de 2003 a 2007. Ao i, o porta-voz episcopal, Manuel Morujão, explicou que “a CEP é um órgão de coordenação e com poder de conselho. [Estes assuntos] são da competência dos bispos”.
A Conferência Episcopal Portuguesa admitiu reflectir sobre a temática na próxima reunião, que deverá acontecer em Abril. “No seguimento das recomendações do Papa Bento XVI, na abordagem dos possíveis casos de abusos sexuais por parte de membros do clero, seguiremos os mesmos princípios: reconhecer a verdade e auxiliar as vítimas; reforçar a prevenção e colaborar construtivamente com as autoridades.”, disse a CEP no único comunicado emitido até ao momento.
Quebra de silêncio
Os olhos estão agora voltados para a primeira nota pastoral do Vaticano sobre o tema, que será conhecida sábado ao meio-dia. Depois de em 2001 João Paulo II ter considerado os abusos de menores como um “crime grave”, Bento XVI promete assinar hoje uma carta dirigida especialmente aos católicos irlandeses, numa altura em que têm sido tornados públicos milhares de casos de violação e abusos físicos em instituições controladas por religiosos, crimes que envolvem mais de 15 mil vítimas menores, 50 padres do país e poderão significar indemnizações no valor de 200 milhões de euros.
Este mês, o Papa Bento XVI foi acusado de conhecer a história do de um padre (Peter H.) acusado e condenado em 1986 por ter abusado sexualmente de um menor de 11 anos. O padre fio transferido para a diocese de Munique, que era, à data, dirigida pelo cardeal Ratzinger. Federico Lombardi, porta-voz da Santa Sé, denunciou uma conspiração para “envolver pessoalmente o Santo Padre na questão dos abusos.”




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