Semana da final da Taça da Liga
Três foi a conta que Nené fez. Hat trick do capitão do Benfica vestido à FC Porto
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 19 de Março de 2010
Em 1981 a final da Taça não foi transmitida em directo pela RTP, porque a FPF pediu 900 contos por um resumo de 20 minutos
Das 11 finais entre Benfica e FC Porto (nove para a Taça de Portugal e duas para a Supertaça, com 8-3 em títulos para os encarnados), a decisão de 1981 entrou na história como a mais bem-educada de sempre entre os dois rivais, sem confusões nem expulsões.
A ajudar à festa, os passes de Shéu e os golos de Nené na vitória do Benfica por 3-1, no Jamor, numa época em que os jornais não distinguiam os dois Jaimes do FC Porto pelos apelidos mas sim por I e II - Pacheco e Magalhães, respectivamente, pelo critério da idade (23-21 anos) e tempo de casa (2-1). Mas neste caso esta distinção até nem foi necessária porque o FC Porto nunca se encontrou, nem quando Veloso fez autogolo aos 9'.
O furacão Benfica, já coroado campeão nacional com dois pontos de avanço sobre o FC Porto e 13 sobre o Sporting, encarregou-se de monopolizar o futebol português, com a conquista da Taça de Portugal na sétima dobradinha na história do clube. A culpa foi de Nené, mas também de Shéu. Este passava e o outro marcava. Foi assim uma, duas e três vezes. Na baliza, o pobre coitado Tibi. "Você nem imagina a quantidade de vezes que joguei com o Nené", diz o guarda-redes do FC Porto ao i, em directo e ao vivo do seu café em Matosinhos. "Ele enganava-me com frequência. Era um artista mesmo quando jogava a extremo, porque era velocíssimo e tinha um jeito de rematar muito curioso." E passa a explicar: "Parado ou em corrida, o Nené chutava com a parte interior do pé direito, de maneira à bola fazer um arco que apanhava sempre desprevenido quem estava na baliza, por mais experiente que fosse. A bola parecia que saía longe do poste, mas de repente fazia um arco e passava mesmo rente aos nossos dedos das mãos. Era exasperante, garanto-lhe."
Nessa tarde, em que Nené foi o capitão na ausência de Humberto Coelho, lesionado, Tibi sofreu três golos mas evitou outros tantos. "Há uma jogada em que o Nené faz aquele remate e eu defendo. Nem imagina a minha alegria. Bolas, finalmente uma defesa. Nem meio segundo depois estava a perguntar a mim mesmo o porquê de estar feliz. Já estávamos a perder...", desabafa Tibi
Melhor marcador da 1.a divisão dessa época 1980-81, com 20 golos em 29 jogos, Nené fechou a época com chave de ouro, com três golos ao FC Porto. Foi ele quem, vestido à FC Porto numa troca de camisolas com Costa, levantou a Taça de Portugal, entregue pelo general das Forças Armadas, o sportinguista Melo Egídio, que se fez representar pelo governo, na ausência de Ramalho Eanes, Presidente da República. Mas isto só viu quem foi ao Jamor, porque mais uma vez a final da Taça de Portugal não foi transmitida em directo pela RTP - que, a propósito, dava religiosamente a final da Taça de Inglaterra e nessa época até deu o desempate da final, também em Wembley, entre Tottenham e Manchester City.
Pois é, a festa da Taça, como tantas vezes é apelidada, não deu na televisão porque a Federação Portuguesa de Futebol pediu 900 contos por 20 minutos de resumo! Foi o próprio Serafim Marques, responsável pelo desporto da RTP, quem deu a má notícia aos jornais e daí aos adeptos.
Depois dessa final, o futebol nunca mais foi o mesmo - no ano seguinte, Pinto da Costa assume a presidência do FC Porto, Jaime Pacheco perde o I, Jaime Magalhães o II e Nené nunca mais marcou a Tibi.
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