Entrevista
Raducioiu: "Os meus filhos não sabem jogar futebol. Lá se foi a teoria do filho de peixe..."
por Rui Miguel Tovar, Publicado em 19 de Março de 2010
Queixas do pai, que faz 40 anos de vida, e é o único jogador a actuar nos cinco campeonatos europeus mais importantes
Javier Zanetti é dos jogadores mais fiáveis do momento. Mas nunca ganhou uma Champions em 16 épocas de Inter. Nesse período, o Milan ganhou três Ligas dos Campeões, a primeira delas, com um avançado de meia tigela lá no meio, Florin Raducioiu. Como aquele Milan era uma constelação de estrelas, o romeno raramente calçava ao pé de nomes consagrados como Desailly, Boban, Savicevic, Papin e Brian Laudrup, só para citar os outros cinco estrangeiros então treinados por Fabio Capello. Mesmo assim, Raducioiu tem a medalha da Champions pela vitória em 1994, com dois jogos e um golo, ao FC Porto de Tomislav Ivic e Vítor Baía (3-0 no Giuseppe Meazza).
E o que é feito de si, Florin? Essa é a questão que se põe no dia do seu 40.º aniversário. O romeno respondeu ao i da forma mais bem-disposta possível. Afinal ele é um bon vivant. Ou melhor, sempre foi, como se comprova pelo episódio das compras num centro comercial em Londres, enquanto a sua equipa, o West Ham, estava a jogar. Mas então, Itália e também Inglaterra? Pois é, além de entrar na idade dos "enta" (40, 50, 60, 70, 80 e 90), Raducioiu é o único jogador a ter alinhado nos cinco campeonatos europeus mais importantes. Excluindo Portugal, claro! O percurso de Raducioiu foi Itália (Bari, Verona, Brescia e Milan), Espanha (Espanyol), Inglaterra (West Ham), Alemanha (Estugarda), França (Monaco) e agora Portugal com esta entrevista ao i. O homem não pára.
Radu, como vai essa reforma?
Óptima. Aturo-me a mim mesmo e divirto-me à brava com a minha bela mulher, Astrid, e os meus dois filhos, Andrea e Alessandro. Só há uma falha no meio disto tudo.
Então, qual?
Eles [os meus filhos] não sabem jogar futebol nem querem saber disso para nada. Lá se foi aquele ditado do filho de peixe sabe nadar.
Ok, mas não me diga que só sabe jogar futebol?
Não, é verdade que tenho outros interesses, mas esses não são rentáveis. Pelo menos à primeira vista.
Quais são os hobbies?
Coleccionar garrafas de vinho - ainda tenho algumas cheias e outras, muitas mesmo, já vazias espalhadas pela casa toda. E também colecciono óculos antigos.
Pois, lá está... À primeira vista os óculos não servem para nada.
O hobby é assim mesmo, não é? Talvez tenha de voltar ao futebol, quem sabe? Mas ainda não tenho aquela vontade de tirar o curso de treinador. Ainda que o Lucescu [Mircea, o treinador romeno do Shakhtar Donetsk] me tenha convidado uma e outra vez para o acompanhar nos futebóis. Mas estou bem aqui, em casa, a desfrutar da minha família.
Por falar nisso, o Radu fixou- -se finalmente na Roménia, porque durante uns quantos anos andou aí de um lado para o outro sem família.
Sim, mas safei-me nessas aventuras todas, porque os meus pais e as minhas duas irmãs mais velhas transmitiram-me valores indispensáveis. Aliás, por alguma razão estreei-me na equipa principal do Dínamo Bucareste com 16 anos, na selecção romena com 18, num Mundial com 20, em 1990. A maturidade foi adquirida muito cedo e a peregrinação por muitos países não me afectou nada. Pelo contrário, até me fez melhor pessoa.
Mas como explica aquele incidente no West Ham: enquanto o clube jogava, você estava nas compras com a sua namorada?
São coisas da vida. Esse plantel do West Ham era meio maluco, no bom sentido. O Paolo di Canio é o Paolo di Canio, o Futre chegou lá e queria desesperadamente a camisola número 10, ao ponto de oferecer umas férias na sua casa no Sul de Portugal ao titular da mesma [Moncur], o Boogers treinou um dia e no seguinte refugiou-se numa caravana para nunca mais sair de lá. A verdade é que marquei três golos, um deles ao Manchester United [2-2], que valeram seis pontos e ajudei o West Ham a ficar na 1.a divisão. Aquela equipa nunca poderia descer, com o Lampard, o Rio Ferdinand, o Joe Cole e um defesa-esquerdo que mais tarde jogou aí, no Benfica [Scott Minto].
Agora diga a verdade. Qual foi a melhor equipa onde jogou?
Antes disso digo-lhe que o meu ídolo foi o Van Basten. Queria ser como ele e marcar golos como os dele. Infelizmente não joguei com ele mas partilhei o mesmo balneário, naquela fase em que ele já estava a pensar abandonar porque não conseguia correr, quanto mais jogar ao nível a que nos habituou. Agora a melhor equipa? A selecção da Roménia no Mundial-94. Mas há dúvidas? Havia lá um senhor que punha todos em sentido: Hagi. Sabes quem é?
Sim, por muito vinho que beba e por muitos óculos de diferentes dioptrias que utilize, sei quem é esse senhor.
Pergunto isto, porque há gente que ainda menospreza essa selecção de 1994. Se não fossem os penáltis com a Suécia, nos quartos-de-final, teríamos chegado às meias-finais e aí é o vale-tudo.
Sim, mas o Hagi é o Hagi. Nesse Mundial, até marcou um golo à Argentina quase do meio-campo, nos oitavos- -de-final.
Nem me digas nada. Até fico arrepiado. Que cena inesquecível. Tenho de desligar para rever os jogos da Roménia nesse Mundial.
Com uma garrafa de vinho?
Até duas. Desculpa lá mas deu--me a saudade. Abraço.
Abraço.
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: Raducioiu: "Os meus filhos não sabem jogar futebol. Lá se foi a teoria do filho de peixe..."
Actividade em ionline