Investigação

Retratos-robô. Novo programa ajudou a chegar ao violador de Telheiras

por Rosa Ramos, Publicado em 19 de Março de 2010   
Mesmo com ajuda informática, o retrato-robô demorou mais de oito horas a ser desenhado
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Chegou a Lisboa em finais de Dezembro e já foi usado para fazer seis retratos-robô. A Polícia Judiciária (PJ) tem um novo programa informático que permite elaborar retratos em três dimensões. Apesar de recente em Portugal, o software, de origem alemã, já deu provas e foi decisivo na captura do alegado violador de Telheiras - o retrato, publicado na imprensa, esteve na origem da chamada anónima que denunciou Henrique Sotero à polícia.

O retrato-robô demorou mais de oito horas consecutivas a ser desenhado e resultou das descrições de oito vítimas, ouvidas pelos peritos do Laboratório de Polícia Científica (LPC). "Foi um trabalho sui generis e muito difícil", admite o perito Mário Jorge. Em primeiro lugar, o contacto que as vítimas estabeleceram com o violador "foi sempre muito curto e em locais com fraca iluminação". Além disso, "algumas mulheres tinham sido abordadas há dois anos, a descrição mais recente tinha seis meses", explica. A maior dificuldade foi desenhar o nariz. "Todas o descreviam como arrebitado, mas demorou-se muito tempo a chegar ao formato aproximado", acrescenta o perito António Cabral. No total, foi preciso retocar mais de 700 imagens para chegar ao retrato final.

Ouvir as vítimas
A elaboração de um retrato-robô pode demorar mais de dez horas. Por muito aproximado que seja da realidade, exige cautelas na sua interpretação. "Nunca podemos dizer que aquela é a pessoa que cometeu determinado crime. Um retrato-robô é a concretização dos dados que nos são transmitidos pelas vítimas ou testemunhas", resume Carlos Farinha, director do LPC. A primeira etapa - e a mais importante - é saber extrair a informação. "Mas antes dizemos sempre às pessoas que vamos tentar fazer parecido, porque sabemos que nunca vamos conseguir fazer igual", refere Mário Jorge.

Questionar as vítimas é uma tarefa que deve obedecer a alguma regras. O timing é importante, já que o retrato nunca deve ser começado pouco tempo depois da ocorrência do crime. "Uma vez tivemos cá uma senhora poucas horas depois de ter sido violada. Chorava compulsivamente", recorda o perito António Cabral. O ideal é deixar passar um dia. Desenhar muito tempo depois também dificulta o trabalho, porque a memória de pormenor começa a perder-se. A relação das pessoas que estão a fazer a descrição com o crime também tem influência no desenho. "Em 2003, duas mulheres assistiram a um assalto e descreveram o criminoso de forma exemplar. Fizeram-no com facilidade porque não estiveram directamente envolvidas no incidente", exemplifica Mário Jorge. Por outro lado, nos casos em que existam várias testemunhas a descrever a mesma pessoa, é preciso assegurar que não conversem entre elas. "Se trocam impressões, a pessoa com maior ascendente poderá influenciar as restantes", justifica Carlos Farinha.

As condições em que o criminoso é observado também pesam na elaboração de um bom retrato. Factores como a iluminação, a duração do contacto visual, a memória, o interesse e a motivação da pessoa que está a fazer a descrição influenciam o trabalho dos técnicos da PJ.

Os peritos
Actualmente, a PJ tem dois peritos encarregados de assegurar a elaboração dos retratos. Em 2009 construíram dez retratos-robô. Este ano já vão em seis. Apesar de na maioria dos casos a técnica ser usada em crimes de natureza sexual, não é um procedimento a que a Judiciária recorra em todas as situações. "Tem uma parte negativa, porque poderá gerar falsas expectativas", sublinha Carlos Farinha. Não basta que a ferramenta tenha potencialidades do ponto de vista técnico. É preciso também perceber se é oportuno recorrer a ela. "E cabe à equipa de investigação perceber em que ocasiões deve ser utilizada", explica o responsável.

Já a divulgação dos retratos exige ainda maior cuidado. "Só pode acontecer se existir um grau de certeza muito grande em relação ao desenho." Desenhar um retrato-robô não é nenhuma técnica divinatória. "Trabalhamos, como em qualquer ciência forense, com amostras--problema que são comparadas com amostras-referência."

No início dos anos 80, os retratos-robô feitos em Portugal dependiam unicamente da capacidade artística dos desenhadores. Só em meados da década se evoluiu para a sobreposição de imagens, recorrendo-se ao uso de transparências. No fim dos anos 90 a técnica de sobreposição manteve-se, mas em suporte informático. Só agora, com o novo programa, se pode falar em tridimensionalidade. "Antes tínhamos uma imagem próxima de uma fotografia. Agora temos uma imagem próxima da realidade", garante Carlos Farinha.

Os retratos de "antigamente" eram feitos com meia dúzia de traços, um processo mais rápido mas menos eficaz. "O novo software vem garantir eficácia, apesar de exigir mais tempo para trabalhar cada retrato", refere o responsável. "E ainda não estamos na fase de cruzeiro", admite. A prioridade dos técnicos é, por agora, aumentar a base de dados predefinida que veio no programa, introduzindo imagens próprias. "Podemos alimentar o programa para que seja mais realista na resposta que nos dá a uma situação concreta", resume Carlos Farinha.


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