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Petrolibras. O lado mais negro de Tony Blair

por Enrique Pinto-Coelho, Publicado em 19 de Março de 2010   
O ex-primeiro ministro britânico vendeu, a peso de ouro, informação sobre investimentos petrolíferos a investidores. Durante meses, conseguiu esconder os serviços prestados
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Investidores do Kuwait e da Coreia do Sul pagaram somas milionárias a Tony Blair em troca de informação estratégica. Durante meses - 20 num caso, mais de dois anos no outro - o político britânico conseguiu manter em segredo os serviços prestados como consultor. A existência dos acordos só foi revelada agora por decisão do Advisory Committee on Business Appointments, um órgão independente de aconselhamento.

Em Dezembro de 2007, sete meses depois de ter renunciado ao cargo de primeiro-ministro, Blair foi convidado pelo governo kuwaitiano a elaborar um relatório sobre o futuro do petróleo nos próximos 30 anos. O contrato com os Al Sabah, a família que controla o emirado, rendeu-lhe um milhão de libras (1,1 milhões de euros, ao câmbio actual).

Meses mais tarde, aceitou aconselhar um consórcio petrolífero sul-coreano liderado pela UI Energy Corporation, uma empresa com interesses nos Estados Unidos e no Iraque. No Verão de 2008, o grupo fechou um contrato para explorar petróleo no Curdistão iraquiano, mas o gabinete de Blair garantiu esta semana que "o projecto não teve nada a ver com o Iraque".

Em Julho desse ano, o antigo líder do Partido Trabalhista solicitou pela primeira vez que o acordo fosse mantido em segredo. Como justificação, invocou alegadas "sensibilidades do mercado". E apesar de violar os seus próprios estatutos, o regulador aceitou adiar três meses a publicação do negócio.

Passado o prazo, em Outubro de 2008, Blair pediu mais seis meses de sigilo e prometeu informar novamente uma vez terminadas as "sensibilidades do mercado". O comité, controlado pelo ex-ministro conservador Ian Lang, nunca mais foi contactado e decidiu "caçar" Blair, segundo o diário "The Guardian".

O site do regulador define agora o trabalho efectuado como "aconselhamento para um consórcio de investidores liderado pela UI Energy Corporation (publicação adiada devido a sensibilidades do mercado)". A mediação petrolífera levou à criação da Tony Blair Associates, uma consultadoria.

"Não é a primeira vez que um ex-líder aproveita os contactos acumulados durante a passagem pelo poder", recorda Bernardo Pires de Lima, autor do livro "Blair, Moral e Poder". Para o investigador, o caso paradigmático é o de Gerhard Schröder, ex-chanceler alemão. Duas semanas antes de abandonar o poder, Schröder aprovou a construção de um gasoduto para importar petróleo russo. Actualmente preside à Nord Stream AG, a sociedade responsável pelo projecto.

Além de contar com Blair, o grupo sul-coreano orgulha-se de incluir com outros políticos de renome no painel de conselheiros: por exemplo, Bob Hawke, ex-primeiro ministro australiano, e Frank Carlucci, ex-secretário de estado dos EUA e antigo embaixador em Portugal. "É uma forte vantagem competitiva da UI Energy Corporation em relação a outras companhias", explica o site da sociedade. "A crise pode acentuar esta tendência, chame-se ela tráfico de influências ou rentabilização de poder", acredita Pires de Lima.

As revelações sobre as actividades de Blair fora de Downing Street juntam-se pormenores nunca antes desvendados sobre a passagem pelo poder. O livro "The End of the party", de Andrew Rawnsley, transcreve uma carta escrita em Julho de 2002 (meses antes da invasão do Iraque) ao então presidente dos EUA, George W. Bush. Blair promete ir atrás de Bush "seja qual for a decisão". Citando fontes, Rawnsley certifica que Blair escondeu o conteúdo das conversações com Bush aos colaboradores e que os norte-americanos estavam convencidos de que o apoio de Blair para invadir o Iraque era um cheque em branco sem quaisquer condicionamentos.


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