Passear
Viajar de comboio pela Tapada de Mafra
Publicado em 19 de Março de 2010
Há javalis, veados, gamos, aves de rapina. Quem precisa de um Expresso do Oriente quando pode passear de comboio pela Tapada de Mafra fora? Foi o que fomos fazer. E recomendamos
Quando estacionamos o carro à porta da Tapada de Mafra e um senhor com um passarão no braço nos dá as boas- -vindas, comentamos: "Olha um mocho, que giro." Os nossos olhos citadinos ainda não se habituaram a esta mancha verde recheada de espécies animais, e será apenas duas horas e vários quilómetros depois que saberemos dizer que o passarão afinal não é um mocho. É um bufo real, uma fêmea chamada Duquesa, e tem tanta força nas garras que é capaz de caçar coelhos e até raposas. (E claro que se soubéssemos isto deixávamos o "que giro" para os nossos botões.)
Há várias formas de conhecer a Tapada de Mafra, e apanhar o comboio articulado é uma delas. Interrompidas durante os meses de Inverno, estas visitas estão agora de regresso e realizam-se todos os fins-de- -semana, de manhã e de tarde. Os lugares não são muitos - cerca de 20, espalhados em três pequenas carruagens - por isso convém reservar.
A visita começa junto ao portão do Codeçal e tem duas paragens e outras tantas surpresas, como avisa o nosso guia, Rui Oliveira. O que percebemos rapidamente é que, numa área que se estende por 819 hectares e onde os animais vivem em liberdade, há surpresas que o próprio não consegue controlar. Boas surpresas, entenda-se, como a que nos surge logo ao início, quando um casal de javalis aparece escoltado por duas crias praticamente acabadas de nascer, minúsculas e com uma pelagem às riscas.
Criada em 1747 pelo rei D. João V, o monarca que também mandou construir o Palácio Nacional de Mafra e que foi dos que mais usufruíram do ouro vindo do Brasil, a Tapada de Mafra foi utilizada por vários reis como zona de caça e lazer, o que leva a que as visitas sejam apresentadas como "uma viagem ao tempo dos reis". A estrada de terra onde passeamos agora de comboio é a mesma onde passeava antigamente a realeza do país, em coches expostos num museu que visitamos na primeira paragem, e as casas do século XVIII onde os reis pernoitavam são as mesmas que foram transformadas em turismo rural e que permitem ficar a dormir na tapada, sob marcação.
Mas quem aqui vem, vem também pelos animais. E além de javalis há veados, gamos (uma espécie parecida com o veado, mas um pouco mais pequena e que fica malhada no Verão, ao estilo Bambi), um lobo e outras espécies mais pequenas ou difíceis de avistar em liberdade, como rãs, sapos, salamandras, cágados, cobras de água, víboras cornudas, raposas, coelhos bravos, sacarrabos, texugos, doninhas e ouriços. Para não falar nas aves de rapina, que ficamos a conhecer em pormenor na segunda paragem da visita, onde dois tratadores nos explicam as artes da falcoaria e nos dão até a hipótese de calçar uma luva de pele grossa e deixar que uma águia ou um falcão treinados venham comer ao nosso braço um pedaço de carne crua.
No total são duas horas e pouco de visita, emoções fortes incluídas. Mas se quiser voltar e explorar mais a tapada, saiba que além dos passeios de comboio é possível fazer três tipos de percursos pedestres, com distâncias e graus de dificuldade variados, um percurso de BTT ou equestre (nos dois casos é preciso trazer o transporte, ou seja, a bicicleta ou o cavalo), visitas nocturnas, piqueniques, tiro ao arco ou até mesmo caça, para profissionais.
Os passeios de comboio realizam--se aos fins-de-semana e feriados, às 10h45 e às 15h00, com partida do Portão do Codeçal. Preço: €11 (adultos), €6 (crianças dos quatro aos dez anos), €8 (maiores de 65), €28 (bilhete família, dois adultos e duas crianças). Reservas ou informações pelo 261 817 050 ou em www.tapadademafra.pt
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