Primeiro plano

O PEC mora ao lado

Publicado em 19 de Março de 2010   
O PEC de Sócrates é um cilício fiscal imposto à economia portuguesa. Para mortificações já bastava a situação do país
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Enquanto o PSD se entusiasma com congressos extraordinários e leis da rolha, o Partido Socialista avança com um Programa de Estabilidade e Crescimento que representa o maior ataque à classe média de que há memória em Portugal. É normal e aceitável que se peçam sacrifícios a quem tem mais rendimentos numa altura de profunda crise como a que vivemos. Mas não é isso que faz o PEC de José Sócrates e Teixeira dos Santos, como se percebe quando se lê que todos os portugueses que ganham acima de 500 euros por mês vão pagar mais impostos. A poupança prevista nas despesas sociais - quase 4 mil milhões de euros - atinge em cheio a classe média e os menos abonados. O PEC de Sócrates é um cilício fiscal imposto à economia portuguesa. Para mortificações já bastava a situação do país.

Não surpreende que o "Mourinho" de Cavaco Silva, o ex-director de campanha do Presidente da República e presidente demissionário do Instituto Francisco Sá Carneiro, Alexandre Relvas, defenda que vamos ter mais uma década perdida com este programa de estabilidade sem crescimento. Ou que Paulo Portas aponte para quatro anos de declínio económico. Ou, ainda, que ne- nhum dos três principais candidatos à liderança do PSD se queira comprometer com este PEC. Ou que, finalmente, até o socialista João Cravinho critique a proposta apresentada por um governo do PS.

"Não perguntem o que o país pode fazer por vós. Perguntem o que podem fazer pelo país", disse John Kennedy no discurso de posse em 1961. O primeiro-ministro não se dá ao trabalho de perguntar nada a ninguém e vai direito ao bolso dos portugueses com menos rendimentos. Esquecendo o que prometeu nas últimas eleições, aumenta os impostos e as taxas, retirando deduções em sectores vitais.

Chamar benefícios a deduções em áreas essenciais como a saúde ou a educação só pode ser uma brincadeira de mau gosto. José Sócrates readaptou a frase histórica de Kennedy: "Não me perguntem o que podem fazer pelo país, que eu próprio trato do assunto em vosso nome com mais impostos e taxas." O líder do PS deveria porém lembrar-se de outra frase célebre de Kennedy: "Escrita em chinês a palavra 'crise' é composta por dois caracteres: um representa perigo e o outro oportunidade." O primeiro-ministro só pensou no perigo e esqueceu-se das oportunidades que deveria oferecer.

É natural que Durão Barroso defenda o documento de Lisboa como "credível" e "ambicioso": no fim de contas, é o presidente da Comissão Europeia e limita-se a pensar nos interesses da União. Ou seja, precisa de convencer todos os estados-membros a reduzirem o défice orçamental. Mas deveria caber a José Sócrates a defesa dos interesses do portugueses. Neste PEC não há vida para além do défice. Ao contrário do que as siglas indicam, é um programa para a instabilidade política e o decréscimo económico em Portugal.

Jornalista


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