Internos de Medicina. Viver a "Anatomia de Grey" na Beira Interior

por Rosa Ramos, Publicado em 18 de Março de 2010   
Dos 59 médicos formados na única faculdade da Beira Interior, oito escolheram continuar na região. Provavelmente, por pouco tempo
Opções
a- / a+

A série de televisão norte-americana sobre a equipa de internos do hospital Seattle Grace agarrou muitos portugueses ao sofá. Ana Catarina Pires nasceu em Viseu, mas cresceu em Londres, está a fazer o internato médico e conhece as diferenças entre ficção e realidade. Teve a certeza de que queria ser médica quando reparou que os seus bonecos estavam sempre doentes - "com pernas partidas e envoltos em ligaduras". Hoje tem 26 anos e quer especializar-se em Medicina Geral e Familiar. É uma das últimas recém-licenciadas da única faculdade de Medicina da Beira Interior.

Este ano, a UBI formou 59 novos médicos. A esmagadora maioria rumou para os grandes centros urbanos, mas oito escolheram continuar no interior. Ana faz parte desse grupo e quis viver uma realidade distante dos grandes hospitais ou dos especialistas mais reputados. O colega José Felgar, interno no Hospital Sousa Martins (HSM) da Guarda, também. E é o primeiro a reconhecer as limitações: "Está longe de ser um hospital de terceiro mundo, mas também está longe de ser o mundo do Dr. House".

O i foi conhecer os internos do ano comum (o primeiro patamar na carreira dos jovens médicos, depois dos seis anos de licenciatura em Medicina) dos hospitais da Guarda e da Covilhã formados na UBI. Os laços afectivos com o interior e a qualidade de vida são as razões mais referidas para a escolha. Mas pouco mais parece seduzir os novos médicos. No final do ano comum de internato, quando chegar a altura de ingressar no internato da especialidade, a maioria sabe de antemão que terá de abandonar a região.

Guarda
José Felgar tem 25 anos e deixou a família para trás, na Régua, há sete anos, quando rumou à Covilhã para tirar Medicina. Fez o sexto ano da licenciatura no HSM e este ano quis continuar na Guarda. Os dias de um jovem médico, garante, começam cedo. "Uma correria". Às 8h30 já estava no bloco operatório a extrair a vesícula biliar a um doente. Logo ele, que detesta acordar cedo. Foi por isso que se deixou seduzir pelo interior. "Não queria ir para Lisboa, sei que me ia fartar depressa de acordar cedo todos os dias para apanhar transportes ou perder horas no trânsito". Mas há outra razão para querer ficar. José Felgar partilha os corredores do hospital com a namorada, Joana Leite, que também está a fazer o ano comum de internato - conheceram-se durante a licenciatura e estão juntos desde o terceiro ano. Para ela, aos 24 anos, trabalhar na Guarda é, assumidamente, um desafio. "Ainda que mais deprimida, a região é atractiva à sua maneira. Num hospital, em que há carência de recursos materiais, são sempre bem-vindos profissionais que compensem essas falhas", justifica. Além disso, a escolha baseia-se numa questão de rentabilização do tempo: "O sexto ano do curso já foi neste hospital e quis tirar partido dessa integração. Estou a poupar tempo, porque noutra instituição teria que conhecer as equipas, as instalações, as rotinas."

Outros são movidos pelas raízes. Andreia Matas nasceu e cresceu na Guarda e está noiva de um enfermeiro que também exerce na região. "Pode parecer mais aliciante ir para fora, onde existem casos mais diversos, mais recursos, mais meios técnicos e médicos de referência, mas aqui não há internos a competir por um doente ou por um procedimento, temos mais oportunidade de experimentar", resume, apontando as vantagens de exercer medicina no interior. Ainda assim, reconhece as limitações de um hospital pequeno: "Não há exames nem especialistas a partir de determinada hora. Aqui temos de pensar em tudo e gerir o que há."

Covilhã
Ser bom médico é saber fazer a gestão do pouco. Ilda Moreira, a mais velha do grupo dos cinco internos do ano comum no Centro Hospitalar Cova da Beira, na Covilhã, está convicta disso. "É nas zonas carenciadas que se aprende realmente a ser médico e a ganhar capacidade de raciocínio para resolver problemas." O colega José Tadeu concorda e assegura que ser médico é " tomar decisões baseadas na indecisão". Por isso, a existência de meios técnicos é menos relevante do que se possa pensar. "A questão não é tanto ter acesso a uma ressonância magnética, mas sim perceber quando se deve recorrer a ela", argumenta. E é aqui que os hospitais pequenos ganham pontos. "Faço as consultas do meu orientador. No final, reunimos e ele verifica todos os procedimentos e corrige o processo. Aqui há tempo para experimentar", garante. Diogo Correia, de Gondomar, acredita que isso nunca aconteceria num hospital grande. "Aqui temos autonomia para fazer, mas ao mesmo tempo segurança, porque tudo é corrigido e verificado e esta experiência é a melhor escolha para este momento da carreira."

Além disso, "um hospital pequeno não é sinónimo de um mau serviço", acrescenta Luís Patrão, que além de interno no hospital da Covilhã é aluno do doutoramento em Medicina Aeronáutica. "Este hospital é óptimo. Claro que não conseguimos fazer análises genéticas, por exemplo. Mas enviamo-las para as instituições onde existem meios e dois dias depois estão prontas. Hoje é tudo muito fácil e a informação circula facilmente", argumenta. Por estas e por outras, Luís Patrão defende que o incentivo do Ministério da Saúde de 750 euros para as áreas carenciadas (que no ano comum de internato não se aplica) é um "exagero". "O estímulo não deveria ser apenas monetário e 750 euros é demasiado. Seria mais interessante que a compensação fosse dada em termos de acções formativas ou integração em projectos de investigação", defende.

Chega para ficar?
Ficar no interior foi a primeira escolha dos oito, mas o discurso muda quando o assunto é fazer carreira num hospital da Beira Interior. Ilda Moreira, que quer ser anestesista, é peremptória e garante que não está a pensar em ficar. A razão é simples: "Por norma, não abrem vagas para as especialidades que pretendo seguir". Por isso, para o ano deverá regressar ao Porto. José Felgar seguirá Pneumologia. Mas acrescenta logo que pode ter de estar aberto a outras hipóteses de especialização. "Pelo menos se quiser continuar no interior", acrescenta.

Este ano, só abriram quatro vagas para internato da especialidade no Hospital Sousa Martins - duas para Medicina Interna, uma para Saúde Pública e outra para Medicina Geral e Familiar - apesar da instituição ter acolhido 12 internos. "Alguns foram embora e queriam fixar--se cá", garante Joana Leite. "A política de recursos humanos funciona assim: investir em internos de ano comum, deixá-los escapar como futuros internos de especialidade que poderiam apoiar a equipa residente e contratar médicos tarefeiros para suportar as necessidades do hospital", critica. Já a Covilhã só ganhou três vagas. Por isso, José Tadeu, que quer ser cirurgião plástico, está ciente de que essa escolha o irá limitar. "Não há falta de médicos em Portugal, há é falta de especialistas e estão mal distribuídos", remata.

 

Com Marta F. Reis



Qual a sua reacção:
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.

Notícia relacionada

Close