Opinião
A crise que vem por bem
por Bernardo Pires de Lima, Publicado em 18 de Março de 2010
Os melhores aliados também têm a suas zangas quando cada um defende os seus interesses. Joe Biden sabia que a ida a Israel não passaria de uma manobra de diplomacia pública a pretexto de um regresso às negociações de paz. O timing era evidente: o governo israelita é demasiado inflexível para ceder a pretensões palestinianas, enfraquecendo-se internamente com isso; a Autoridade Palestiniana vive uma crise de liderança e mantém-se longe do controlo de Gaza. Tudo condimentos básicos para se manter o status quo. A construção de colonatos judaicos em Jerusalém oriental fez desesperar a Casa Branca e o Pentágono. Biden fez saber a Netanyahu que estas medidas minavam as negociações e prejudicavam as tropas americanas no Iraque e no Afeganistão. Washington não quer radicalizar ainda mais essas frentes, as grandes provas de fogo externas da Administração Obama. Mais: a reprimenda dada a Israel mostra a vontade em construir uma coligação alargada com estados árabes (Arábia Saudita, Egipto, EAU) que isole o Irão, enfraquecendo a sua posição e reduzindo os apoios directos ao Hamas e que minam todo o processo de paz. Obama tem sido acusado de prejudicar as relações entre Washington e Israel e há quem considere que ele procura aceitação entre os árabes. Parece-me uma leitura incorrecta. Defender os interesses americanos nos conflitos que fazem exasperar a América implica alguma equidistância no nó górdio do Médio Oriente. É precisamente essa margem de manobra que Biden acaba de conquistar em Jerusalém.
Investigador universitário
Tem mais informações sobre esta notícia?
Conte a sua história. Seja um iRepórter.
Artigo: A crise que vem por bem
Actividade em ionline