Padres indiciados por abusos: só os bispos sabem quem eles são

por Sandra Pereira, Publicado em 18 de Março de 2010   
A Conferência Episcopal Portuguesa anunciou que vai discutir o assunto na próxima reunião, em Abril, mas garante já que "na abordagem dos possíveis casos de abusos sexuais por parte de membros do clero" vai "colaborar construtivamente com as autoridades"
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A Conferência Episcopal Portuguesa (CEP) não teve conhecimento dos dez casos de padres investigados por abuso sexual de crianças em Portugal entre 2003 e 2007, como revela o estudo do investigador da Polícia Judiciária (PJ) Pedro Pombo, publicado ontem pelo i.

"O CEP é um órgão de coordenação e com poder de conselho. Não tem autoridade para intervir nas dioceses. [Estes assuntos] são da competência dos bispos", explicou ao i o porta-voz episcopal, Manuel Morujão. Por isso, assegura, "tem um desconhecimento absoluto" de situações de padres investigados por alegados actos pedófilos no país.

Entre 2003 e 2007, dez padres foram indiciados pelo Ministério Público por abuso sexual de crianças num total de 5128 casos, de acordo com os dados dos relatórios anuais da PJ que Pedro Pombo recolheu para a tese de doutoramento "Abusadores Sexuais. Uma perspectiva Neuropsicológica", apresentada no ano lectivo de 2007/2008 na Universidade de Salamanca, em Espanha.

Como resposta, a CEP admite reflectir sobre a questão "numa próxima reunião" e seguir as medidas de combate à pedofilia que o Papa Bento XVI prometeu divulgar sexta-feira na Carta Pastoral dirigida ao episcopado irlandês e aos católicos de todo o mundo.

"No seguimento das recomendações do Papa Bento XVI na abordagem dos possíveis casos de abusos sexuais por parte de membros do clero, seguiremos os mesmos princípios: reconhecer a verdade e auxiliar as vítimas; reforçar a prevenção e colaborar construtivamente com as autoridades", salientou o episcopado português num comunicado.

Contudo, o Vaticano parece ter outra visão sobre a actuação do episcopado. "A CEP deve apurar se houve ou não casos [de abusos sexuais de crianças na igreja] e tomar medidas", considerou D. Saraiva Martins, cardeal na Cúria da Santa Sé, em Roma. "Os bispos portugueses e a CEP devem ser extremamente rigorosos com os padres pedófilos", acrescentou. No dia anterior, o porta-voz do Vaticano, Federico Lombardi, tinha também sustentado que "estes assuntos têm de ser resolvidos com a CEP".

"A Igreja não deve ser condescendente com esse tipo de conduta por parte do clero para que estes casos não se repitam", concluiu o cardeal D. Saraiva Martins. "É um fenómeno que não poupa grupos, nem classes na sociedade", reagiu o bispo auxiliar de Lisboa, D. Anacleto Oliveira, que ficou "desagradavelmente surpreendido" com a revelação da abertura de inquéritos devido a abuso de crianças por padres em Portugal.

O i tentou obter esclarecimentos adicionais sobre os dez padres investigados junto do Ministério Público, que referiu não dispor de mais informações, já que o tratamento deste tipo de casos "não é feito com base nas funções que os intervenientes desempenham", mas nos tribunais em que os processos decorrem. Não tendo sido possível apurar o ponto de situação destes inquéritos.

recomeço Os católicos aguardam agora com impaciência a carta de Bento XVI. Dirigindo-se aos peregrinos irlandeses, o Papa garantiu ontem que "ajudará no processo de arrependimento, de cura e recomeço" de uma "situação dolorosa" - a pedofilia - que atingiu países em todo o mundo e mais recentemente a Alemanha, Áustria, Holanda, Suíça e Brasil.

As medidas do líder mundial da Igreja Católica contra padres pedófilos deverão inspirar-se no modelo dos EUA, onde em 1992 apareceram centenas de denúncias de abusos sexuais cometidos por membros do clero. Uma selecção mais cuidada dos candidatos ao sacerdócio, o reforço da formação académica e espiritual dos padres e a generalização de comissões especiais para tratar este tipo de crime podem em breve vigorar nas igrejas católicas europeias.

Peter Stilwell, teólogo da Universidade Católica, realça a atitude mais transparente da Igreja após décadas de silêncio. "Tem os seus problemas, mas é das poucas instituições que tem assumido responsabilidades: suspendeu padres, instaurou processos e participou na elaboração de relatórios" sobre pedofilia.


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