PRIMEIRO PLANO
O bullying dos professores
por João Cardoso Rosas, Publicado em 18 de Março de 2010
A educação disciplinada é compatível com o respeito da pluralidade de ideias e visões dos alunos. É condição para que o pluralismo floresça
Foi noticiado o caso de um professor que se suicidou por não aguentar a indisciplina dos alunos. Mas este caso trágico é apenas a ponta de um gigantesco icebergue. O verdadeiro bullying que os alunos exercem sobre os professores, através da indisciplina e do bloqueio ao normal funcionamento das aulas, é um fenómeno comum.
Os portugueses ficaram surpreendidos quando, há dois anos, viram as imagens do "caso do telemóvel" numa escola do Porto, postas na internet pelos próprios alunos. Nesse episódio, os estudantes intimidavam a professora verbal e fisicamente. No entanto, se houvesse câmaras escondidas nas salas de aula pelo país fora, estes episódios seriam trivializados. Eles são muito mais comuns do que se pensa.
Este estado de coisas não é novo e tem causas profundas. A sociedade portuguesa passou por um processo rápido de massificação do ensino. Mas este processo está integrado num movimento mais vasto de transição do autoritarismo do Estado Novo para uma democracia frágil que nega o próprio valor da autoridade. Talvez por isso estes problemas são mais comuns entre nós do que em países do Norte da Europa, com sistemas de ensino mais consolidados e realidades sociopolíticas menos oscilantes entre os extremos do autoritarismo e da rejeição da autoridade.
Mas o pior no nosso caso é o estado de negação de responsáveis políticos e, por vezes, dos próprios docentes. A questão da indisciplina é quase sempre confundida com a da violência aberta - que é rara e tem uma solução penal. Ora, o problema não está aí. O problema está no dia-a-dia das escolas, na impossibilidade prática que os professores têm de dar aulas devido a um ambiente difuso de indisciplina e intimidação.
A escola tradicional, antes da massificação, dedicava-se a ensinar e não a educar. A razão disso era externa à própria escola. As crianças vinham educadas de casa e os professores podiam dedicar- -se inteiramente a ensinar. Nos tempos que correm, as famílias já não têm tempo nem instrumentos para educar as crianças. Neste caso, ao contrário do que costumam defender alguns sectores políticos, a família não é a solução mas antes o problema. Por isso a escola não pode apenas ensinar. Ela tem, antes de mais, de educar e, se não o fizer, também não conseguirá nunca ensinar.
Não se pense que estou a defender algum tipo de autoritarismo, ou o regresso à escola cerceadora da criatividade. Neste caso, como noutros, as aparências enganam: a escola pseudo-tolerante, a escola da indisciplina e do bullying, é a que menos se presta ao espírito crítico e à inovação social. A educação disciplinada não é apenas compatível com o respeito da pluralidade de ideias e visões do mundo dos alunos - é uma condição necessária para que esse pluralismo possa existir e florescer. A prova disto, a contrario, é que os jovens portugueses são hoje, ao mesmo tempo, indisciplinados na escola e socialmente conformistas.
Professor universitário de Teoria Política.
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