Entrevista

O Prémio Leya? "Se fosse o Euromilhões mudava a minha vida. Assim não"

por Bruno Vieira do Amaral, Publicado em 18 de Março de 2010   
O escritor moçambicano João Paulo Borges Coelho está em Portugal para apresentar "O Olho de Hertzog", romance vencedor do Prémio Leya 2009
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João Paulo Borges Coelho nasceu em 1955, no Porto, e foi para Moçambique ainda criança. Confessa que optou por ser moçambicano. É professor de História na Universidade Eduardo Mondlane, em Maputo, mas é o seu trabalho como romancista que começa a ser reconhecido. "O Olho de Hertzog", agora apresentado em Portugal, valeu-lhe o Prémio Leya. A acção do livro decorre em Lourenço Marques, após a Primeira Grande Guerra. É um retrato amplo da sociedade daquela época através de um conjunto excepcional de personagens. E o pretexto para conhecermos um historiador para o qual a literatura é soberana.

Que mudou na sua vida com a atribuição do prémio?

Para já não mudou grande coisa. Traz mais visibilidade ao meu trabalho. Houve uma sacudidela esta semana, com as entrevistas e os lançamentos. Tenho esperança que depois regresse à normalidade das aulas e da escrita.

Começou a publicar há sete anos. Há uma diferença entre o que escrevia antes de publicar e aquilo que escreve agora?

Não. Nunca sinto pressão. Eventualmente há contextos em que editores pedem material aos escritores. Isso nunca aconteceu comigo. Tenho o meu ritmo e quando as coisas estão prontas contacto a editora.

Isso pode estar em vias de se alterar.

Sim, mas eu não sei escrever depressa. Quando muito o editor pode perguntar se tenho algum material, o que estou a fazer, mas de resto, o ritmo é meu.

Para alguém que publica livros há anos, não sente que há alguma injustiça no facto de ser necessário um prémio para dar a conhecer a sua obra?

Percebo aquilo que diz, mas tenho noção de como funcionam os mercados e, portanto, seria um gasto desnecessário de energia estar a revoltar-me. Tenho uma concepção muito egoísta da prática da escrita. Enquanto trabalho não existe nem o mercado nem o leitor. E como não vivo da escrita, permito-me olhar com uma certa distância para esse tipo de problemas. Além disso, escrevo em Moçambique, onde não há mercado do livro.

Nesse caso, os escritores moçambicanos escrevem para quem?

Não me ponho essa questão. Escrevo aquilo que me apetece.

Mas o facto de se escrever para um público que não coincide com a sociedade que o escritor representa não pode levar a uma opção pelo exótico?

Já vi escritores africanos dizerem que se é o exótico que vende, então vamos fazer o exótico. Ao fazê-lo pomos em causa a integridade da literatura. A mim desgosta-me este tipo de exótico. O leitor nem se apercebe do grau de manipulação que isso representa. Ao mesmo tempo, remete-nos a uma espécie de gueto. Chega-se à livraria e lá está o cantinho da literatura alienígena, ou dos pretos, ou africana, para quem procura o diferente. Não procuro uma escrita africana.

A sua prosa é clássica, não há qualquer esforço para encaixar no estereótipo do escritor africano. É deliberado?

A minha escrita é clássica mas há, por vezes, um desvio do cânone. Não sou um purista. É verdade que neste livro há uma abordagem mais neutra da língua, como se dissesse que a questão do livro não é a língua.

O facto de o protagonista e narrador ser um alemão também pede essa abordagem mais neutra.

Do ponto de vista daquilo que está construído como sendo a literatura moçambicana, meter uma personagem alemã deixa as pessoas perplexas. É um atentado ao formato clássico. Se calhar devia pôr um colonialista férreo, maléfico, ou então um libertador puro. Mas não é isso que me interessa.

Interessa-o mais a literatura do que esse tipo de discurso?

Desconfio da literatura enquanto arma para educar as pessoas. As pessoas educam-se a si próprias. O livro tem de ser suficientemente aberto para que o usem como entenderem, até para declararem a nulidade dele. Se não há liberdade, perde o interesse. Como tal, resisto muito a que este livro seja considerado um romance histórico.

O romancista e o escritor coabitam bem dentro de si?

O que busco na literatura é sair dos parâmetros da História. Não busco complementaridades porque isso seria submeter cada uma das componentes ao arbítrio da outra.

São compartimentos estanques?

Não. A informação histórica alimenta a literatura, mas a literatura também é alimentada por outros factores que não são estritamente racionais.

Disse uma vez que o romancista interpreta os factos emocionalmente.

Emocionalmente, intuitivamente, arbitrariamente. Mas a literatura é também um jogo de muita cultura. Nesse sentido, há uma alguma crise da literatura africana, aquela que é mais jovem. Não tem muitas referências e cai numa inocência que dificulta a qualidade e provoca uma benevolência do Norte em relação ao Sul.

Às vezes o olhar do romancista é muito trabalhado.

O segredo está em conseguirmos ser cultos sem transformar a literatura numa prática mecânica que obedeça a escolas. Quando isso acontece, há uma espécie de corrupção da literatura. Eu prefiro correr riscos.

Significa que não tem influências?

Quando estou a escrever, não penso em influências. Se me perguntar sobre um autor que admiro, digo-lhe que é o Coetzee. Mas não persigo a escrita dele. Gosto de tudo o que ele escreve mas não quero fazer aquela escrita.

No sentido de ser um homem dividido entre dois mundos e duas culturas, a personagem de João Albasini [jornalista moçambicano] é o seu alter-ego?

É uma personagem dividida, mas não é o meu alter-ego. Se me perguntasse onde é que eu, com as devidas cautelas, terei posto mais de mim, diria que é no Hans Mahrenholz, que não tem qualquer importância na história, a não ser transportar a história com ele.

Que esteve na génese do romance?

Foi o diário de Lettow [Lettow-Vorbeck, general alemão, comandante da campanha da África Oriental Alemã, durante a Primeira Guerra Mundial]. E depois houve outros pontos de partida e eu forcei a confluência. Houve até sinais do além. Quando comecei a investigar o caso dos Foster, uma espécie de Bonnie e Clyde sul-africano, sentei-me a fazer zapping e num canal estava a dar um filme sobre a história deles. Um acaso extraordinário. Um sinal.

Enquanto escreve está aberto a essas sugestões do quotidiano?

Seguramente. Eu não consigo trabalhar com um plano fechado.

Apesar do relato de aspectos sociais e históricos no livro, essa não parece ser a sua principal preocupação.

Não quis fazer um livro de mensagem contra os malefícios do colonialismo. É muito mais eficaz nesse campo um livro de História. Não quis vergar a literatura, humilhá-la num papel que não lhe cabe. Acho, e isto é contestável, que a literatura é soberana, mas não no sentido negativo, de olhar sobranceiramente para a realidade.

A sua atitude com a literatura é a de um diletante?

Estou preparado para arcar com esse peso. Não me sentiria bem a traçar um cenário histórico ortodoxo e depois andar à pancada com as personagens para que elas coubessem lá dentro. Se eu passo por verdade aquilo que é ficção, estou a quebrar o contrato entre o escritor, que finge que o que escreve é verdade, e o leitor, que finge que acredita. Há uma quebra unilateral do contrato. É por isso que não gosto da designação de romance histórico.

Recomendaria o seu romance a alguém que quisesse saber mais sobre aquela época?

Sim. Penso que ficaria com um certo espírito da época, tal como eu o entendo. Há uma fidelidade, não à letra, mas ao espírito. Mas nunca quis ultrapassar esta ligação da ficção.

Está a trabalhar noutro romance?

Tenho um pequeno romance pronto. Há também uma novela futurista, que escrevi em paralelo com este livro, e estou a partir a pedra inicial de um trabalho de mais fôlego. Mais do que condicionar os trabalhos futuros, gostaria que a visibilidade associada ao prémio ajudasse a divulgação dos livros que já existem.

Já tem destino para os 100 mil euros do prémio?

Não tenho qualquer ideia. É muito e é pouco. Dá para comprar uma casa, talvez. Não me dá segurança para largar tudo e dedicar-me à escrita. Se fosse o Euromilhões, mudava a minha vida. Assim não.

É um Euromilhões em termos da exposição mediática?

Isso não me agrada nada.

Mas o mercado exige cada vez mais essa exposição.

Tenho essa noção. Mas não hei-de ser uma figura pública em permanência. As pessoas têm os futebolistas para se distraírem.

Há escritores que são estrelas.

Espero que façam bom proveito.


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