Liga Europa
Benfica, atenção ao "enfant terrible" Hatem Ben Arfa
por Pedro Candeias, Publicado em 18 de Março de 2010
O francês que marcou ao Benfica na Luz não é flor que se cheire. As papoilas saltitantes que se preparem
O que nasce torto, tarde ou nunca se endireita e se disserem isto a Ben Arfa o mais natural é receberem uma resposta torta. No mínimo, que ele não é de se ficar pelas palavras. O francês do Marselha, o marcador do golo na Luz (1-1) na primeira mão, tem um feitio torcido. Um futebolista quase-genial que não o é por causa do mau-génio. E tarda em endireitar a carreira que começou a despontar desde o nascimento.
Filho de Kamel Ben Arfa, antigo internacional tunisino, Hatem Ben Arfa deu nas vistas logo em miúdo, tanto pelo talento como pela personalidade: aos 11 anos, foi a estrela do documentário "A La Clairefontaine" (Clairefontaine é a academia de futebol mais famosa de França) pelos pezinhos dele e por uma zanga com Abou Diaby, agora no Arsenal. Esse foi o primeiro de muitos tête-à-tête que vieram cá para fora - os outros ficarão dentro do balneário.
Com 15 anos, o Lyon compra-o e ele evoluiu nos escalões de formação até à estreia em 2004/05, num jogo com o Nice - foi titular pela primeira vez a 11 de Setembro de 2004, em vitória sobre o Rennes. Seguiram-se golos, regularidade e parecia estar encontrado um novo prodígio de segunda geração, como Zidane. Até que o outro lado veio à tona. Em 2008 zangou-se com Benzema e envolveu-se numa escaramuça com o veterano Squillaci - para quem tinha acabado de prolongar o contrato até 2010, assinava a certidão de óbito no Lyon. Que fez ele então? Bom, forçou a saída. Circularam os primeiros rumores de que se tinha comprometido com o Marselha, o Lyon fechou-lhe as portas e Ben Arfa veio dizer ao jornal "La Provence" que já tinha mesmo assinado com os marselheses e que jamais voltaria ao Lyon.
Dito e feito. Faltou aos treinos de pré-época e a disputa entre os clubes só seria resolvida numa reunião promovida pela Liga Francesa: Ben Arfa mudou de camisola a troco de 11 milhões de euros mais alguns benefícios, que não cobriam o tal mau feitio. Logo a abrir, uma pequena rixa com Cissé num treino; depois, num pós-jogo com o Liverpool, a contar para a Liga dos Campeões, mimos trocados com o colega M'Bami. Não contente, deixou pendurado o belga Eric Gerets, então treinador do Marselha, quando este lhe pediu para aquecer na derrota humilhante (e caseira) com o PSG (2-4). A desculpa foi descabida: "Estava lesionado." Gerets não foi na cantiga e Ben Arfa viu-se obrigado ao arrependimento público - e à alternância consecutiva entre o banco de suplentes e o campo.
Veio Deschamps e Ben Arfa, de 22 anos, podia ter crescido. Mas não, manteve-se irreverente e insolente. Em Outubro falha um treino após ida à Tunísia, culpa os aeroportos e que o deviam ter entregue a tempo e horas e é multado em 10 mil euros. Semanas depois, o impensável: num treino discute violentamente com Deschamps, ao qual deram a alcunha Le Général, só porque sim, e traçou outra vez o destino - só jogou sete jogos completos até agora. Mas na Luz bastaram-lhe 15 minutos para marcar e comprometer a vida do Benfica.
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