Médio Oriente
Israel em maus lençóis: Hamas pede Intifada. Washington pressiona
Publicado em 17 de Março de 2010
Hillary alivia tensão entre EUA e Israel. Mas a amizade americana tem um preço: cedências do regime hebraico
Há cinco dias Israel proibiu o acesso de qualquer palestiniano com menos de 50 anos à "Esplanada das Mesquitas" - um dos lugares mais disputados por judeus e muçulmanos. O governo de Benjamin Netanyahu comprou um barril de pólvora. Afinal de contas, é lá que está a Mesquita de al-Aqsa, o terceiro lugar sagrado do Islão, logo a seguir a Meca e Medina. E é lá também que Israel acaba de reabrir a Hurva, uma sinagoga do século XVII, que custou 15 milhões de euros. Mas a isto, soma-se ainda o anúncio da expansão do colonato judeu de Ramat Shlomo, em Jerusalém Oriental. Era o que faltava para acender o rastilho.
Nas estruturas mais radicais do poder palestiniano multiplicam-se as denúncias de uma "conspiração sionista" para controlar Jerusalém. A manobra do estado hebraico só pode ser contrariada com uma terceira Intifada. Foi isso que o Hamas pediu ontem: "Tem de haver um plano de longo prazo para confrontar estes planos sionistas" disse Mussa Abu Marzuk. "A Intifada deve ter a participação de toda a sociedade palestiniana. Todos têm de se erguer contra as forças de ocupação", apelou um dos líderes políticos do Hamas. Ontem em Jerusalém, foi "Dia de Raiva" e de confrontos. Embora a polícia israelita negue os sinais de uma Intifada, as pedras lançadas contra a polícia israelita e os pneus e caixotes do lixo incendiados fazem lembrar os dias mais conturbados da relação israelo-árabe.
Aparentemente, os palestinianos estão a tentar capitalizar a turbulência nas relações entre Washington e Telavive, lançando uma "nova guerra de resistência" contra Israel. O governo de Benjamin Netanyahu, acreditam os palestinianos, está em tão maus lençóis que vai arcar com a condenação da comunidade internacional numa nova escalada de violência com os palestinianos, mesmo sendo os últimos a abrir as hostilidades. Barack Obama e Benjamin Netanyahu entraram em rota de colisão quando, no final da semana passada, o primeiro ministro israelita anunciou a construção de mais 1600 casas para a comunidade judaica de Jerusalém Oriental precisamente no dia em que recebia a visita de Joe Biden. A jogada foi lida na Casa Branca como um "insulto" ao vice-presidente que viajava com um objectivo claro: desbloquear o problemático processo de paz.
Israel não tardaria a sentir o bafo político da administração Obama: na sexta-feira, Hillary Clinton fez uma chamada de 43 minutos para Netanyahu, apresentando uma lista de exigências inegociáveis. Washington quer que Israel dê sinais de boa fé relativamente ao processo de paz, exige conversações sérias e substantivas, e pede o congelamento imediato dos projectos expansionistas israelitas. Resta saber se Netanyah, que depende de uma coligação com a direita ortodoxa para governar, pode dar uma resposta positiva aos EUA.
A posição americana, mais dura, não é alheia a um relatório do chefe de estado maior da armada, Mike Mullen, que reflectiu as suas preocupações sobre os constantes impasses no processo de paz. No Pentágono, os decisores acreditam que a aproximação de Obama ao mundo Árabe está a perder credibilidade aos olhos dos líderes árabes porque os americanos não parecem dispostos a contrariar a intransigência de Israel. Hillary Clinton tentou desdramatizar, falando nas relações "próximas e inabaláveis" entre Telavive e Washington. Mas lá que há "abalo", há. E enquanto Israel não mostrar "compromissos com a paz na região", como pediu Clinton, George Mitchell fica em terra. O enviado especial dos Estados Unidos para o Médio Oriente cancelou ontem a visita a Israel, marcada para esta semana.
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