Rapper baleado

PSP atenta a retaliações pela morte de MC Snake de Chelas

Publicado em 17 de Março de 2010   
Amigos e família do rapper dizem que as autoridades estão a mentir e que PSP "atirou para matar"
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“Queimar um azul” (matar um PSP) é a ordem que se tem ouvido em surdina na zona de Chelas, depois da morte do rapper MC Snake na madrugada de segunda-feira, atingido a tiro por um agente da PSP durante uma perseguição policial. Fonte da PSP- disse ao i que vários elementos ligados à criminalidade na zona de Chelas, em Lisboa – onde morava o rapper que foi baleado – têm passado a mensagem de que é necessário retaliar. O i apurou que já há alguns agentes no terreno a monitorizar os possíveis desenvolvimentos.
Neste caso, o agente da PSP que disparou, constituído arguido no processo, pode vir a ser acusado de homicídio por negligência. Segundo a lei, o recurso à arma de fogo é justificado para repelir a agressão contra o agente ou terceiros, “se houver perigo iminente de morte ou ofensa grave à integridade física”, para “prevenir a prática de crime particularmente grave que ameace vidas humanas” ou para “proceder à detenção de pessoa que represente essa ameaça e que resista à autoridade”. Ao que tudo indica, nenhuma destas situações terão ocorrido, apesar do fugitivo ser referenciado pelas autoridades.
Nuno Miguel Manaças Rodrigues, MC Snake ou Puto Snake, é conhecido das autoridades pelo seu envolvimento em actividades ilícitas. Há cerca de dez anos, foi preso por uma brigada de investigação criminal da PSP em casa e, nessa altura, chegou a fugir pela janela e a ser capturado a cerca de 500 metros. No interior da casa, foi apreendida droga, material relacionado com o tráfico e armas, o que viria a condenar o jovem a mais de seis anos de cadeia – cumpriu cerca de cinco.
O rapper era referenciado como amigo e acompanhante da “Turma do Miguel” – amigos e conhecidos do ex-jogador do Benfica – e de outro rapper com o nome Barbosa, que também actuou com Sam the Kid. Este último, detido no início do ano por, alegadamente, ter na sua posse armas proibidas.
Outra fonte da PSP garantiu ao i que a família aparece agora unida nas televisões, mas foi a própria mãe que fez queixa de um dos irmãos de MC Snake por violência doméstica. Um dos irmãos, também conhecido por Snake é referenciado na Polícia Judiciária e na PSP por tráfico de droga, suspeito de ligações próximas a redes espanholas e chegou mesmo a cumprir uma extensa pena de prisão.
Relativamente à morte do rapper, a maioria dos agentes da PSP contactados pelo i, lamentou o sucedido e sugerem que pode ter havido precipitação associada à inexperiência do agente que disparou, uma vez que estava há pouco tempo na corporação. Ainda assim, ninguém no seio da PSP considerou a actuação do jovem agente justificada.

“Foi um tiro para matar” Para os familiares e amigos, Nuno Rodrigues seria “incapaz” de fugir à polícia. Em Chelas, a população reúne-se à volta do carro, com a convicção de que “a polícia está a mentir.” O amigo de infância, Alexandre, 31 anos – conhecido por Mama – não tem dúvidas: “Foi um tiro para matar, disparado na horizontal.”
Na quinta-feira passada, Snake já tinha sido parado pela PSP: “Ia para o aniversário de uma amiga”, conta o irmão mais velho, Jorge Rodrigues. Apenas lhe pediram documentos e não deram justificação. “Tinha tudo em ordem”, conta. Um dia antes do incidente, que resultou na sua morte, Snake foi até casa do amigo Mama, na Zona J, convidá-lo para sair. “Íamos ao RS Dreams, a sua discoteca favorita.” No entanto, a saída foi cancelada, porque “o carro não andava.” Os problemas, identificados pelos amigos, provocavam o aquecimento do radiador. Para a família não restam dúvidas: “Um carro, a cair de velho, com os problemas que tinha não conseguia fugir oito quilómetros.”As primeiras reacções à chamada da Polícia Judiciária, sobre a morte de Nuno Rodrigues, foram de surpresa: “No bairro até o chamam de padre, porque tenta sempre apaziguar”, garante o irão. Os amigos que cresceram com Snake acreditam que o facto de já ter estado preso, o rap e a forma como se vestia “marcaram-no” até à morte. O irmão concorda e vai mais longe: “O meu irmão morreu pela forma como se vestia.”
Snake tinha duas paixões: “a música e a sua filha de um ano e meio.” O grande ídolo era Snoop Dog, revelam os amigos. O  Pedro H conhecido por Lofty no bairro – recorda as tardes que passavam juntos a ouvir música e a falar sobre filmes: “A série favorita dele era os Sopranos. E adorava todos os filmes sobre máfia italiana.” No bairro prepara-se agora um concerto, em sua homenagem, com a participação do Sam The Kid. Mas não esquecem: “o Snake morreu e foram os bófias que o mataram. Agora vão ter de nos matar a todos”, avisou o amigo Mama. O velório é hoje em Chelas. O funeral será amanhã e os amigos vão vestir uma t-shirt branca, com uma frase: “será que sou eu o culpado”, escrita na parte de trás. 



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