Comissão de Ética

Ongoing admite que negócio da TVI pode estar comprometido

Publicado em 17 de Março de 2010   
Nuno Vasconcellos diz que novo accionista da Prisa obriga a "ponderar" o negócio e acusa Balsemão de "incompetência" na Impresa
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A entrada da Ongoing no capital accionista da TVI pode não passar do plano das intenções. "As regras mudaram a meio do jogo", alertou ontem o presidente da Ongoing Investments, Nuno Vasconcellos, numa alusão à entrada de novos accionistas no capital social do grupo espanhol Prisa, dono da Media Capital. "Estamos a pensar. É um negócio e tudo tem de ser ponderado", admitiu à saída da sua audição na comis- são parlamentar de Ética, Sociedade e Cultura.

Na base das reservas da Ongoing está o acordo assinado no início de Março entre o grupo Prisa e o grupo norte-americano Liberty Acquisition Holdings, no âmbito da reestruturação financeira do grupo espanhol. E embora a administração da Liberty já tenha assegurado que esta operação "não afectará a gestão da Prisa e das suas subsidiárias", Nuno Vasconcellos considera que há matéria para reavaliar a pertinência do negócio. "O grupo Prisa tem sentido imensas dificuldades financeiras e agora vai entrar o grupo Liberty. Não gosto que mudem as regras a meio do jogo. O caso é sério, complexo e merece toda a nossa consideração", explicou o presidente da Ongoing durante a sua audição, recordando que o acordo existente foi assinado com a família Polanco, accionista maioritária da Prisa. Questionado pelos jornalistas sobre o eventual falhanço no negócio de compra de 35% da TVI, Vasconcellos remeteu qualquer decisão para "31 de Março, que é quando acaba o contrato".

O acordo entre a Prisa e a Ongoing para a compra de uma participação de 35% na Media Capital, dona da TVI, foi anunciado formalmente no final de Setembro, depois do falhanço da operação entre a Prisa e a Portugal Telecom. Mas desde Setembro o negócio não avançou mais: primeiro porque a CMVM forçou o lançamento de uma OPA da Ongoing sobre a Media Capital - devido ao acordo parassocial estabelecido entre as duas partes - e depois porque a Entidade Reguladora para a Comunicação Social (ERC) obrigou a Ongoing a alienar a sua participação de 23% na Impresa, dona da SIC, para poder formalizar a entrada no capital social da detentora da TVI.

Estas questões suscitaram ontem também fortes críticas de Nuno Vasconcellos. Não só pelo atraso da ERC na deliberação - cerca de quatro meses -, mas também pelo conteúdo da mesma: "Ficámos numa situação delicada. Há fundos de investimento que investem em várias empresas do mesmo sector. Mas isso é uma outra história que terá de ser mais bem contada", apontou, convicto de que "houve manipulação do mercado de ca-pitais" devido à obrigatoriedade de a Ongoing ter de alienar a sua posição no grupo Impresa.

A relação da Ongoing com o grupo Impresa foi, de resto, motivo para as críticas mais contundentes de Nuno Vasconcellos durante a sua audição. Com um alvo definido: o presidente da Impresa, Francisco Pinto Balsemão, a quem o líder da Ongoing chegou a referir-se como "o príncipe da comunicação" e a acusar de "incompetência".

A acusação foi feita na sequência das explicações de Vasconcellos sobre a tentativa de reforçar a posição da Ongoing no grupo Impresa e garantir um papel mais activo na gestão do grupo. "A proposta não era um ataque. Propostas destas são feitas todos os dias no mercado de capitais", esclareceu, defendendo estar "de consciência tranquila". "Se algum erro cometi, foi na avaliação do senhor presidente da Impresa, o que lamento", afirmou, antes de se mostrar "preocupado" com a saúde financeira de um grupo que o seu pai [Luiz de Vasconcellos] ajudou a fundar, em 1973. "Em dez anos a Impresa não distribuiu dividendos e vale hoje menos de metade do que valia. É natural que um accionista como eu se preocupe com isso, para além da amizade que tem com as pessoas", disse, defendendo que "aqui não há uma crise de dois ou três anos: há incompetência".

Sobre as palavras do director do "Expresso" acerca da alegada tentativa da Ongoing de "descaracterizar" a Impresa, Vasconcellos foi peremptório: "Não falei com ele sobre a nossa proposta, portanto essa afirmação só pode ser colocada ao nível do delírio." Contactada pelo i, fonte oficial da Impresa recusou comentar as críticas de Vasconcellos: "Os resultados financeiros falam por si", apontou, numa referência aos lucros que o grupo registou em 2009.

Vasconcellos rejeitou ainda as suspeitas sobre o financiamento da PT à Ongoing para a compra da TVI: "A Ongoing Investments nunca foi alvo de investimentos directos ou indirectos do fundo de pensões da PT." E garantiu que todas as operações do grupo na área de media são feitas "com capitais próprios ou recurso a dívida em bancos privados."


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