Economia Comportamental

Estudo. Dinheiro não compra felicidade

por Marta F. Reis, Publicado em 17 de Março de 2010   
Economistas do Canadá sustentam que os níveis de felicidade estagnaram nos países mais ricos. Riqueza destrói capital social
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Economistas das Universidades de Calgary e Colúmbia Britânica, no Canadá, acreditam estar mais perto de perceber o paradoxo da felicidade nas sociedades modernas: mais riqueza não parece tornar as pessoas mais felizes. Num trabalho publicado no “Economic Journal”, Curtis Eaton e Mukesh Eswaran demonstram que, à medida que a produtividade aumenta, o consumo exibicionista tende a dominar a economia, dissipando a riqueza adicional na produção de bens como jóias, obras de arte ou automóveis de luxo, em prejuízo dos bens públicos, comunitários e do capital social.
“Estes bens representam um jogo de soma zero para a sociedade: satisfazem os proprietários, fazendo-os parecer mais ricos, mas o resto das pessoas fica num estado pior”, explicam os investigadores ao diário inglês “The Guardian”. O trabalho partiu de uma análise matemática e foi desenvolvido desde 2005 com um objectivo definido: procurar uma resposta para o paradoxo da felicidade a partir do fenómeno do consumo ostentatório, definido por Thorstein Veblen, em 1899. “Quem tem uma riqueza acima da média consome os bens de Veblen [os produtos sem valor intrínseco que caracterizam o consumo ostentatório], com um impacto positivo na sua felicidade. Mas a felicidade de quem está abaixo da média tem um impacto negativo”, dizem os investigadores, que acreditam que à medida que a produtividade aumenta as sociedades são conduzidas a uma armadilha. “Os bens de Veblen expulsam todos os bens e actividades que promovem o bem-estar, incluindo bens públicos, lazer privado e comunitário e, de uma forma perversa, o bem-estar e a produtividade estão inversamente relacionados”, escrevem. Sustentam ainda que os seus resultados podem explicar a estagnação dos níveis de felicidade e sentido de comunidade nos países mais desenvolvidos. Ana Cordeiro Santos, investigadora do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra, lembra que é precisa alguma cautela: “Os estudos da felicidade são uma área recente e normalmente partem de avaliações subjectivas. Sabemos contudo que, à medida que o nível médio de riqueza aumenta, a desigualdade social pode também aumentar”, afirma.
Nuno Ornelas Martins, professor da  Faculdade de Economia e Gestão da Universidade Católica Portuguesa, salienta que a ideia de o consumo associado ao estatuto ser uma rasteira do crescimento económico não é nova. Perante um excesso de produção, “a existência de desigualdades na distribuição do rendimento levaria à falta de procura”, explica. A falta de procura motivaria então o consumo ostentatório e este, por seu lado, levaria ao aumento da produção de bens privados e à aposta no capital físico.
Numa altura em que se pensa rever os cânones do bem-estar, o famoso psicólogo clínico britânico Oliver James acredita que as sociedades modernas estão a viver uma epidemia de affluenza, a doença da riqueza. O psicólogo Nuno Ferrão vê o problema da felicidade com raízes mais profundas do que a carteira: “Uma pessoa pode ter o Rolls-Royce estacionado na garagem e não se sentir feliz. Há pessoas que estão bem com isso, e outras que pensam: a riqueza veio em detrimento de quê?”


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