Memória

César: um golo brasileiro sem TriNaranjus mas com muitas borbulhas

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 17 de Março de 2010   
Benfica ganha final ao FC Porto, mas não levanta a Taça porque estava guardada na Praça da Alegria. É só rir!
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Lançadas as sementes do bi em 1979, era altura de colher o tri em 1980, o que seria inédito na história do FC Porto. O início é prometedor, com 19 pontos nas primeiras 11 jornadas do campeonato (só três empates) e um feito europeu na primeira eliminatória da Taça dos Campeões, frente ao Milan (0-0 nas Antas e 1-0 no Giuseppe Meazza, com golo de Duda). O regresso de António Oliveira do Bétis, para onde se transferira cinco meses antes, pela verba recorde de 36 mil contos, aumentou as esperanças, mas a ponta final da época é uma tremenda desilusão. Culpa do Sporting, que ganha todos os 15 jogos em casa, ao contrário do FC Porto, que empata dois, o último dos quais, decisivo, com a equipa de Alvalade, a quatro jornadas do fim. Os leões sagram-se campeões depois de um autogolo do vimaranense Manaca (ex-Sporting) e obrigam o FC Porto a arrumar as camisolas de tricampeão já feitas, substituídas pelas do TriNaranjus, a famosa bebida das famílias portuguesas nos anos 80. Mas falta a final da Taça de Portugal, com o Benfica. O Jamor é o palco ideal para o FC Porto ressarcir-se da perda do tri - fosse ele de laranja, limão ou maçã. Sempre sem borbulhas. Mas o FC Porto estava sem gás, quiçá enfraquecido pela aliança popular Benfica-Sporting. A palavra de ordem é "contra o Pedroto, marchar, marchar". O treinador dos portistas é o alvo dos adeptos lisboetas, que aparecem em massa no Jamor, com as bandeiras dos respectivos clubes e até um cartaz enorme, no qual se lê: "Oh Bocas! Querias o tri. Agora nem campeonato e muito menos a Taça, Zé Maria Maroto." O azul dilui-se no meio de tanto vermelho e verde.

NEM FESTA NEM FUTEBOL Curiosamente é um avião verde (do Exército, e não do Sporting) que sobrevoa o Jamor e deixa cair sobre o relvado a bola que, mais tarde, seria transportada para o balneário do FC Porto, debaixo da camisola de Lima Pereira. Pelo meio, César deu a única alegria do dia. "Mas esse nem foi o golo mais importante da minha carreira, embora o Fonseca [guarda-redes do FC Porto] não tivesse esboçado uma reacção", desabafa ao i o brasileiro, agora com 53 anos e funcionário público em São João da Barra, sua terra natal, no estado do Rio de Janeiro. "O melhor foi o da final da Libertadores, de peixinho [cabeça], com o Peñarol, que garantiu a taça ao Grémio em 1983."

Como é habitual, o clássico deixa marcas. Alberto fractura a tíbia e o perónio num lance casual com Frasco aos 10' e os jogadores das duas equipas até fazem um corredor humano a aplaudir o lesionado, de saída numa maca. Mas esse fair play foi por água abaixo na segunda parte, quando Carlos Manuel agride Lima Pereira. Gerou-se um sururu tal que até a polícia teve de entrar em campo para acalmar os ânimos. Resultado: nem cartão amarelo para o fogoso médio benfiquista, que arranhou a cara do central portista, que reagiu com uma patada. "Não quis estragar a festa!", explica o árbitro César Correia, de Faro, que não escapa aos insultos da época: palhaço.

No final, as críticas dos portistas, com Pedroto à cabeça. "Um penálti por marcar fez a festa das águias. Mais uma vez, temos de falar nas tais grandes penalidades que decidem campeonatos e outorgam Taças."

E por falar nela, o que é feito da taça? Essa não foi entregue nem levantada pelo capitão Humberto Coelho, porque um ilustre desconhecido (Telmo Barreiros, funcionário da federação) levou-a para a Praça da Alegria, sede da Federação Portuguesa de Futebol, temendo a enorme confusão no final do encontro, com a maioria dos 80 mil espectadores a entrar pelo relvado dentro.


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