Música
"Os Toranja foram mal compreendidos" - vídeo
por Clara Silva, Publicado em 17 de Março de 2010
Tiago Bettencourt lançou mais um álbum a solo. Pelo caminho deixou a antiga banda, o ténis e a arquitectura
É impossível não sentir claustrofobia na sala onde ensaiam Tiago Bettencourt e a sua mais recente banda, os Mantha. No piso -3 de uma garagem perto da Avenida dos Estados Unidos da América, em Lisboa, o ar é pesado e vários carros fazem manobras em frente ao portão branco de uma cave convertida em estúdio de música. "De vez em quando temos de ir lá acima apanhar ar e beber qualquer coisinha", confessa o ex-vocalista dos Toranja, Tiago Bettencourt. Na cave os telemóveis não têm rede e não há nada que distraia os três músicos nos ensaios dos temas do álbum "Em Fuga", lançado na passada segunda-feira. "Tivemos de pôr aqui uns candeeiros e apagar as luzes de néon para a sala ficar com um ar mais agradável", conta Tiago.
"Em Fuga" é o segundo álbum a solo do músico de 30 anos, desde o fim dos Toranja, em 2006. "É a continuação do meu trabalho como artista, mas com músicos completamente diferentes", explica, referindo-se a Tiago Maia (na guitarra) e João Lencastre (na percussão). O álbum foi gravado entre um estúdio em Sete Rios, em Lisboa, e o estúdio de Howard Bilerman (ex-Arcade Fire), em Montreal, no Canadá. "Precisava de marcar a diferença em relação aos Toranja e este álbum foi uma espécie de grito de independência", afirma o vocalista.
Quando o convidaram para formar os Toranja, estava a meio do curso de Arquitectura e não imaginava a volta que a sua vida viria a dar. "Gravámos o primeiro álbum ["Esquissos"] quando estava no 5.o ano da faculdade. Até pus lá um agradecimento ao professor de Projecto que me deixou faltar às aulas", conta. Conseguiu acabar o curso, mas não chegou a realizar o estágio final. "Tenho saudades de desenhar", confessa. "Agora vou fazendo só umas obras lá em casa, a fingir que sou arquitecto, mas precisava de mais tempo."
Os Toranja tornaram-se famosos com o single "Carta", escrito por Tiago, que chegou a ser tema de um sketch dos Gato Fedorento pela quantidade de palavras cantadas: 329. "Disse ao Zé Diogo [Quintela] que ele ainda conseguia acrescentar mais palavras. É saudável gozarmos connosco próprios."
O novo álbum a solo é mais uma tentativa de seguir um percurso musical alternativo. Na rua ainda encontra "pessoas chatas" que lhe pedem que cante êxitos antigos. "Essas músicas chegaram a muita gente, mas quem ia aos nossos concertos percebia que aquilo não era música comercial. Os Toranja foram uma banda muito mal compreendida."
Acabaram em 2006 porque tinham "opiniões diferentes em relação aos caminhos criativos a seguir". "Em qualquer projecto, mais vale deixar como está que fazer mal", afirma Tiago. Talvez por isso tenha abandonado o ténis de competição, outra das suas paixões até entrar na faculdade.
Veja o ensaio de Tiago Bettencourt gravado em exclusivo para o i em www.ionline.pt.
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