Visto de Fora

A fidelidade não é uma obrigação, mas torna o amor completo

por Francesco Alberoni, Publicado em 16 de Março de 2010   
Outrora prevalecia a dupla moral, o homem exigia fidelidade mas não era obrigado a ser fiel. Hoje em dia homens e mulheres estão no mesmo plano
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Pelas cartas que recebo, constato que muitas mulheres casadas têm um amante infiel ao qual são infiéis, e apetece-me dizer-lhes: "Porque não tentam novamente com o vosso marido, partindo do zero, tentando realmente amarem-se um ao outro, apostando no verdadeiro erotismo e na fidelidade?" Muitos acham que sentimentos como a exclusividade, a fidelidade e o ciúme pertencem ao passado, que representam uma fraqueza sem lugar no mundo moderno. Segundo essa lógica, mesmo que amemos e sejamos amados, podemos ter relações sexuais com outras pessoas sem que daí resultem consequências, e o amor e a relação permanecem inalterados. Mas nada disso é verdade. Quem não ama pode fazer o que quiser, mas quem está apaixonado deve estar atento, porque o amor é como uma obra de arte, uma sinfonia à qual não se podem acrescentar outros sons sem a deturpar e destruir. Logo, é um erro achar que a fidelidade é só um dever.

Num grande amor, a fidelidade não nasce do dever, mas sim do prazer.

Há uma mulher que exprime isso mesmo com grande clareza quando escreve: "Nunca mais me envolverei com outra pessoa porque não quero desperdiçar e estragar as fantásticas sensações que tenho contigo. Bastaria um contacto para poluir irreparavelmente a pureza da relação. É como a gota de veneno que consegue estragar uma garrafa de água pura, como a maçã da árvore maldita do paraíso. A fidelidade centra-se totalmente no ser amado, intensifica-nos o desejo por ele e faz com que a nossa vida seja divinal. Isto também é válido para ti. Se andares com outra mulher, sais da estrada que leva ao encantamento que alcançámos juntos." Na paixão amorosa, a fidelidade é desejada porque torna o amor completo. Quem se deixa tentar nunca mais reencontra a totalidade perdida porque uma parte da sua alma estará sempre distante. Gostaria de concluir esta minha declaração herética dizendo que nem sequer é verdade que o prazer máximo se obtenha trocando continuamente de parceiro. É uma velha concepção machista, também defendida por numerosas mulheres. Mas é falsa. A plenitude do prazer só se alcança com o tempo, conhecendo a fundo a pessoa que se ama, aceitando amá-la sem medo, sem orgulho, sem tabus, sem mentiras e procurando a intimidade total, o prazer total, o abandono total.

Sociólogo, escritor e jornalista


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