Numa demonstração sobre as maravilhas das imagens 3D, o ecrã gigante mostra um jogo de râguebi em que a bola voa descontrolada para "fora" do campo. A reacção da audiência é instintiva e imediata: ouvem-se pequenos gritos, baixam-se cabeças e levantam-se mãos para "defender" a bola. Depois, uns sorrisos toscos enquanto se ajeitam os óculos de plástico preto que foram responsáveis pelo engano: o cérebro viu o que não estava lá.
A demonstração, feita no centro dedicado ao 3D que a fabricante Sony tem em Basingstoke, Inglaterra, cumpre assim o seu objectivo. É que, ao contrário do que se tem dito, não serão os filmes a empurrar o 3D para dentro das salas de estar dos consumidores. Será o desporto.
"Há um apetite muito grande pelo 3D", garante Darren Long, director de operações do canal Sky Sports. A cadeia televisiva britânica vai apostar forte na nova tecnologia e está a poucas semanas de lançar o Sky 3D, que será acessível pelos clientes que já têm o pacote de alta definição. É um investimento de milhões, que na verdade não tem qualquer garantia de sucesso. Mas a Sky acredita tanto no 3D que se juntou à Sony e à Telegenic para a construção do primeiro camião de exteriores 3D. O Campeonato Mundial de Futebol 2010 será o primeiro grande teste para a indústria, que está mortinha por justificar uma nova vaga de corridas às lojas de electrónica.
Estreia anunciada
A Sony já marcou para Junho o lançamento das primeiras televisões Bravia 3D. A Panasonic estreou os seus modelos nos Estados Unidos na semana passada. E a Samsung fez uma festa de arromba na mítica Times Square para marcar o início das vendas, com nada menos que James Cameron, o realizador de "Avatar", a filmar todo o evento (que incluiu um concerto supresa dos Black Eyed Peas). Os próximos três meses vão ser frenéticos, mesmo a tempo de seduzirem os fãs de futebol com mais entusiasmo - e dinheiro.
De facto, um pacote típico de televisão mais óculos especiais vai custar qualquer coisa como 2000 a 3500 euros. Haverá mercado para este luxo? Sony, Samsung, LG Electronics e Panasonic estão certas que sim. A Sony prevê que, no próximo ano, 10% de todas as televisões que vender já serão 3D (algo como 2,5 milhões de unidades). A empresa patrocina a Federação Internacional de Futebol (FIFA).
Até agora, praticamente todos os testes feitos pela Sky incidem sobre eventos desportivos, desde ténis e atletismo a boxe e ao omnipresente futebol. Os resultados foram espantosos. "O 3D permite ver coisas que nunca tivemos antes em televisão", acrescenta Darren Long, admitindo que a cadeia tem cometido alguns erros e está a melhorar a sua forma de filmar a três dimensões.
O problema é que praticamente não há especialistas avançados em tecnologias 3D e este novo mercado veio criar profissões que antes não existiam - já ouviu falar em estereógrafo 3D? Ou em operador de convergência? Empresas como a Sky e a Sony querem ser pioneiras neste mercado exactamente por isso. No caso da fabricante japonesa, os grandes trunfos vão ser os leitores Blu-ray, que irão substituir o DVD, e a consola de jogos Playstation 3. Ambos terão capacidade 3D.
Como se vê em três dimensões
É preciso enganar o cérebro para "ver" almôndegas a cair ao nosso lado ou roçar em plantas no longínquo planeta de Pandora. Paul Cameron, da Sony, explica que é preciso manipular a forma como vemos a profundidade: foco, perspectiva, oclusão, luz e sombra, intensidade das cores e contraste.
As cenas são gravadas com duas câmaras, que têm de estar em coordenação absoluta. Depois, fundem-se as imagens numa única, que se projecta no ecrã. "Os óculos voltam a separar o sinal em duas imagens e enganam o nosso cérebro", completa Cameron. São usadas várias técnicas para dar a ilusão de que os objectos estão atrás ou fora do ecrã. Porque é que isto lhe interessa? Bom, quando o 3D não é bem alinhado o espectador não vai perceber mas estará a prejudicar a visão e a cansar demasiado o cérebro. É a mesma coisa que tentar olhar para baixo com um olho e para cima com o outro. Aliás, a Sony estima que cerca de 5% da população não seja sequer capaz de ver em 3D - por exemplo, se não virem de um olho, se tiverem astigmatismo ou outros problemas de visão e ainda perturbações cerebrais.
Alguns neurologistas e especialistas de visão já afirmaram publicamente as suas dúvidas quanto aos efeitos negativos de ver imagens em 3D, mas a verdade é que não há dados sistemáticos sobre potenciais problemas - até porque o mercado só arrancou verdadeiramente com o sucesso de "Avatar". Questionados sobre esta matéria, os responsáveis da Sony avisam que os principais problemas ocorrem durante a gravação e edição das imagens sobrepostas. Também a qualidade dos óculos utilizados tem importância.
No cinema, os óculos mais comuns são os polarizados ("real 3D"), com um par de filtros que restringem a luz que chega a cada olho. Custam apenas uns cêntimos e adequam-se aos ecrãs gigantes e são até os mesmos que os profissionais usam nos monitores de edição.
No entanto, para a utilização em casa são mais apropriados óculos com outro tipo de complexidade (e qualidade). A Sony, por exemplo, concebeu um modelo em que as lentes têm cristais líquidos e um filtro polarizador que se torna escuro quando recebe energia. Estes óculos só funcionam quando são ligados e recebem infra-vermelhos. O senão? São caros, algo como dezenas de euros, e não funcionam com televisões 3D de outras marcas. Por isso, se quiser convidar amigos para uma sessão de 3D em casa, terá de comprar vários pares de óculos. Este é um dos obstáculos que a Consumer Electronics Association está a tentar resolver com negociações para o desenvolvimento de um standard nos óculos. É que, tão cedo, não será possível ver 3D sem um par de lentes que engane o cérebro.




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