Semana da final da Taça da Liga

Carlos Manuel. "Foi o Eriksson quem disse que íamos jogar às Antas. E ganhámos 1-0"

por Rui Miguel Tovar, Publicado em 16 de Março de 2010   
Em 1983, após decisões, anulações, recursos, recursos dos recursos, a final da Taça de Portugal jogou-se em Agosto, no campo do FC Porto. Quem marcou o único golo? A locomotiva do Barreiro
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Nunca uma final da Taça de Portugal despertou tanta discórdia e confusão como aquela em 1983, entre FC Porto e Benfica. Ainda antes da época 1982-83 começar, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) deu a certeza de que a final se realizaria nas Antas, indepen- dentemente do nome e do peso dos clubes, mas o rastilho explodiu quando se encontraram os dois finalistas, a 8 de Maio: FC Porto (9-1 ao Académico, da 2.ª divisão) e Benfica (2-0 ao Portimonense).

O Benfica não achou graça nenhuma à coincidência e o presidente Fernando Martins mostrou-se intransigente, razão pela qual mandou todos os seus jogadores para as merecidas férias, depois de conquistado o campeonato. No Porto a arrogância benfiquista fez mossa e os rumores de manobras de bastidores no sentido de transferir a decisão para Lisboa deixaram os portistas à beira de um ataque de nervos. Organizou-se, então, uma assembleia-geral no dia 1 de Junho, em que os sócios aprovaram por aclamação que o clube não comparecesse à final, a não ser nas Antas. "Lisboa não pode colonizar o resto do país. O desejo deles é que o FC Porto desça de divisão", vociferou Pinto da Costa. No dia 6, o Conselho de Justiça da FPF deu razão ao FC Porto, mas o Benfica ameaçou recorrer aos tribunais civis, pelo que a final ficou adiada sine die. E é aqui que entra o sueco Sven-Goran Eriksson, no relato de Carlos Manuel, o herói das Antas.

"A Taça já estava marcada para as Antas há muito, por isso não valia a pena teimar. Então Eriksson dirigiu-se ao presidente Fernando Martins e disse-lhe para jogarmos a decisão no Porto. O presidente ouviu e aceitou." A versão do presidente é, no entanto, ligeiramente diferente, com fina ironia pelo meio. "Fui eu que decidi que fôssemos às Antas, por uma questão de respeito pelo futebol e para evitar que o FC Porto pudesse estar sujeito a terríveis consequências..."

Novamente Carlos Manuel: "Na quarta-feira antes do jogo, o Benfica foi jogar a Bilbau, com o Athletic, para a Taça Ibérica, e domingo fomos às Antas. E não se quebrou o enguiço, pois voltei a ganhar uma final da Taça ao FC Porto, depois de 1980 e 1981. O meu golo foi um pouco parecido com aquele marcado à RFA, em Estugarda, dois anos depois. No meio-campo, o Stromberg passou-me a bola e eu dei dois passos para a frente antes de rematar de muito longe. O remate foi traiçoeiro e acusaram Beto, o malogrado Zé Beto [morreu num acidente de viação em 1992], de ter sido mal batido. Depois, controlámos a partida e acabámos por vencer de forma justa e limpa num jogo que marcou o início de época e não o final, como ainda é habitual."

Para Fernando Gomes, capitão do FC Porto nesse encontro, a verdade é outra. "O jogo ficou decidido por um remate fora da área, muito longe da baliza mesmo, que traiu o guarda-redes. É verdade que o Benfica defendeu bem a vantagem, mas o FC Porto foi superior como nunca havia sido frente ao Benfica. Por isso perdemos mal essa final, disputada fora de época e de forma polémica."

Quem ficou agastado com a derrota foi José Maria Pedroto, o treinador do FC Porto, naquele que seria o seu último clássico com o Benfica. "O Benfica utilizou o seu poderio para não jogar na data marcada [12 de Junho em Coimbra], em que reconhecia estar em muito má forma." Ainda não havia águia Vitória mas mesmo assim a Taça voou para Lisboa.


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