Os Spandau Ballet conseguiram fazer uma pausa maior do que a própria carreira. Nascidos em 1980, deram ao mundo temas como "Gold" ou "True", uma balada que certamente terá contribuído para o aumento da natalidade na década de 80. Em 1990 anunciaram uma pausa e durante quase 20 anos ninguém soube deles. Agora estão de volta, mais velhos, mais sábios e mais bem vestidos, mas com a mesma vontade de espalhar pelo mundo a pop romântica de outros tempos.
Num Pavilhão Atlântico ainda vazio, a voz de Tony Hadley ecoa tão forte como há 20 anos, durante o sound check da banda. Faltam algumas horas para mais um concerto da "The Reformation Tour", o grande regresso dos Spandau Ballet. Quando a música acaba, Tony Hadley, o vocalista, aparece no corredor. Está uns quilos mais largo e tem um aspecto distinto. Cumprimenta toda a gente e desaparece no camarim.
This much is true
Ao contrário do que dizem os cartazes que anunciam a volta dos Spandau Ballet, "A banda que inventou a década de 80", Steve Norman, guitarrista e saxofonista, prefere o termo representar: "Ajudámos a estabelecer um som que representava os anos 80 e tivemos a sorte de pertencer a esse movimento, não o inventámos, até porque esses anos eram maiores do que a vida, tudo era maior: as produções de discos, os concertos, até o cabelo!" E se o cabelo ainda vai resistindo ao revivalismo dessa década, a roupa e a música não. Parece que os anos 80 vieram para ficar: "Os ciclos demoram 20 anos a fechar-se e chega uma altura em que se olha para trás em busca de inspiração para o presente. Aquela foi uma altura musicalmente muito produtiva, com uma grande descoberta e oferta de novos sons", diz Norman.
Já para Martin Kemp, baixista e dono dos olhos mais azuis do mundo, foi uma altura de canções, ao contrário dos anos 90, em que "as canções desapareceram". "Tentei ensinar o meu filho a tocar guitarra, durante uns anos, mas depois veio toda a cultura de música de dança, e DJ e ele largou a guitarra: já só queria misturar discos, o que é uma pena."
To cut a long story short
Voltaram porque "tinham saudades de tocar juntos". Afinal, "20 anos é muito tempo". "Hoje estamos mais próximos do que naquela altura e divertimo-nos muito." Separaram-se porque precisavam de espaço. "Crescemos juntos e passávamos muito tempo uns com os outros. E falo por mim, mas precisava de aprender a ser mais responsável", confessou Steve Norman.
Quanto à estética passada (e hoje ultrapassada), garantem não haver qualquer arrependimento: "Vestíamos exactamente o que queríamos e usávamos em palco o mesmo que os miúdos na discoteca. Naquela altura éramos fixes."
Concerto
À hora marcada, 21h00, quem estivesse do lado de fora do Pavilhão Atlântico, em Lisboa, não diria que estava para começar o concerto de uma das mais emblemáticas bandas dos anos 80. Talvez por ser domingo, ou por estar o Sporting a jogar em Alvalade, o certo é que o Pavilhão estava a menos de meio gás. A plateia parecia uma reunião de liceu vinte anos depois. Pelo menos a julgar pelas idades da maioria dos espectadores, que talvez tenham querido recordar os tempos em que “To Cut a Long Story Short” e “True” faziam parte da banda sonora obrigatória. A banda inglesa cumpriu o que se lhes pedia: um alinhamento de duas dezenas de grandes êxitos, como “Through the Barricades”, e ainda uma paragem pelo novo single “Once More”. Hoje, os cinco ingleses tocam em Madrid e põem ponto final na digressão europeia, que segue para a Austrália em Abril. Ana Rita Guerra




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