Geração Mil Euros

Tiago Polido. "Em Portugal ia ser só mais um"

por Cláudia Garcia, Publicado em 15 de Março de 2010   
Os dois anos no curso de Matemática Aplicada e a licenciatura em Educação Física foram determinantes para se tornar num treinador de referência no mundo do futsal
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Em Portugal treinava a equipa da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD) da primeira divisão do campeonato de futsal. Ganhava 150 euros, mas só em gasolina gastava 450. Viver e trabalhar fora do país não foi uma decisão premeditada. Depois de dois anos e meio na UTAD, Tiago Polido, então com 25 anos, apercebeu-se que o mercado de futsal em Portugal não correspondia às suas expectativas: estava "fechado num círculo de lóbis", afirma. "Como não tinha padrinhos dentro dos clubes, decidi sair." Tiago tem a certeza de que, se continuasse em Portugal, seria apenas mais um. "Ambição e determinação" foram fundamentais para o passo seguinte. Aos 25 anos, Tiago Polido conseguiu uma bolsa Leonardo da Vinci e foi para Espanha "aprender com os melhores". Viveu com José Venâncio, actual seleccionador espanhol, campeão mundial e bicampeão europeu. "Foi sem dúvida o ano mais desgastante da minha vida", recorda.

Em Santiago de Compostela, a poucas horas do Porto, trabalhou a um ritmo "frenético". Acompanhava os treinos, observava os jogos, preparava as apresentações e fazia todo o trabalho de escritório. As horas de sono eram sempre poucas, "no máximo seis". "Quando [Venâncio] viajava e só chegava a casa de madrugada, eu deitava-me muito cedo, para poder dormir mais." Recolheu dados para a tese de mestrado e, ao final de um ano, a recompensa chegou. Recebeu uma proposta para gerir o gabinete de observação. Num jantar do clube passou "despercebido", mas ouviu, da boca daquele que considera ser um pai, as palavras que nunca mais esquecerá: "A melhor contratação do ano foi o Tiago", dizia o seleccionador espanhol. Recusou a proposta do Lobelle, da primeira divisão espanhola, porque o seu sonho era ser treinador principal.

Um técnico espanhol indicou Polido ao Prodosplit na Croácia. E Tiago aceitou sem hesitar, dando início a uma carreira internacional com uma proposta de cinco meses e um ordenado de 1800 euros para terminar o campeonato croata: "Cresci muito em Espanha, mas em Split aprendi a adaptar-me aos diferentes ambientes em que estou", diz.

Apesar de conhecer as dificuldades do mundo do futsal - trabalhar sem contrato, motivar jogadores que não recebem, lidar com acordos sujos - o jovem treinador não olhou para trás. Terminou o campeonato croata e voltou a Espanha para se encontrar com Venâncio.

Tiago acompanhou a equipa durante uma semana na Taça de Espanha e, de repente, recebeu um telefonema de Itália. "Estava tão confuso, não sabia o que fazer." Um conselho foi determinante: "O Venâncio disse que eu tinha de ir." Apanhou um voo de Madrid para Milão e, três dias depois, estava no Porto a fazer as malas para viver em Itália. No comando do Arzignano chegou à final da liga italiana. No ano seguinte prolongaram--lhe o contrato, "limpou o balneário", contratou jogadores e um treinador- -adjunto português. Polido levou o clube à final da Taça de Itália. E venceu. Conquistou o campeonato sub-21.

Chamaram-lhe então o "Mourinho do Futsal", mas os atrasos nos pagamentos aos jogadores e à equipa técnica fizeram com que desistisse do desafio. "Os problemas económicos destruíram as condições de trabalho", conta. No entanto, já tinha propostas de Japão, Croácia, Portugal e novamente de Itália.

Voltou à Croácia: o MNK Zagreb é o clube que treina actualmente. Sem derrotas, faltam três meses para o fim do campeonato e 13 pontos para o título. "Eu quero sair, mas sair bem. Vencer." Na Croácia, Polido recebe telefonemas que o levam a pensar em novos horizontes. Qatar e Itália estão interessados. Japão seria "só para ganhar muito dinheiro". Mas mesmo aqui ao lado, em Espanha, "joga-se o NBA do futsal". E a vontade de vencer, estar com os melhores e ser o melhor, deixam-no cada vez mais perto do país.


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