Que os homens não gostam um do outro é coisa pública. Mas para os mais distraídos, Manuel Machado decidiu desenterrar o machado de guerra que parecia escondido algures entre os dias que se passaram entre a goleada na Luz (Outubro, 6-1), os problemas de saúde (Novembro) e a recepção ao Benfica na Choupana (ontem).
Só que o jogo da Madeira era mais do que uma guerra de egos de chicletes mascadas de boca aberta ou fechada, do português falado ou do jogo jogado – era um encontro de dúvidas e decisões, porque o Braga tinha ganho na véspera e apertava na classificação; porque o Benfica empatara com o Marselha na quinta-feira e viaja para França esta semana; e porque no próximo domingo há a final da Taça da Liga, no Algarve, contra o FC Porto.
E a festa que Jorge Jesus fez no golo de Cardozo, numa correria louca (ele que tem adiado uma operação ao joelho direito) como a de Mourinho em Manchester, diz tudo sobre a importância da vitória, magra no resultado mas que engorda a confiança encarnada.
UM MINUTINHO, POR FAVOR Minuto 63’: Oscar Cardozo faz o mais difícil, falha o penálti (duvidoso) e veio à memória aquele jogo de Setúbal em que o paraguaio deixou cair três pontos nos segundos finais. Jesus, uma pilha de nervos do início ao fim do jogo, explodiu contra Cardozo que ouviu das boas do seu treinador.
Minuto 64’: Oscar Cardozo faz o mais fácil e faz o golo após a jogada de Ruben Amorim. De besta a bestial num minutinho apenas; de bestial a besta instantes depois, ao não chegar ao bis só com Bracalli (melhor em campo) pela frente. E Jesus perdeu as estribeiras, novamente, e Cardozo pôs as mãos na cabeça para tapar as orelhas que estavam a ferver.
Este foi o melhor período do Benfica que durante a primeira parte estivera amorfo, sem explosão ou imaginação. Mérito do Nacional e de Manuel Machado que fechou o meio-campo e não permitiu espaços aos talentos sul-americanos do Benfica. Nos primeiros 45 minutos, o jogo prolongou-se num longo bocejo e nas ladainhas das adeptas do Nacional que cantavam a plenos pulmões.
VIROU O DISCO... E a música foi outra. Depois do intervalo, o Benfica ganhou vida sem que Jesus trocasse as peças do xadrez dele. O que mudou? A atitude. Fábio Coentrão (46’), Di María (57’), Luisão (60’) testaram uma, duas e três vezes a baliza de Bracalli e os encarnados começaram a passar mais tempo do lado de lá da barricada. E numa das investidas – às vezes mortíferas outras suicidas – de David Luiz nasceu o penálti que Cardozo falharia para depois redimir-se num golo daqueles que todos dizem ser capazes de fazer. “Até eu”, como diz Nuno Gomes no anúncio que anda para aí. O número 21, um capitão que é apenas mais um nos festejos exuberantes da equipa.
O português não entra nas contas de Jesus mesmo na hora de fazer descansar os artistas; JJ prefere os outros, que por acaso até são estrangeiros: Aimar saiu e entrou Pereira para dar músculo ao meio-campo; Saviola foi substituído por Peixoto para fazer avançar Di María, que seria trocado por Kardec. Pelo meio, o Nacional, que de nacional só tem o nome (sete brasileiros no onze), cresceu, porfiou e quase acertou – Quim fez uma defesa impossível (85’) e Jesus quase foi ao tapete, exausto de tanto gritar e esbracejar. Mas foi ele quem acabou por cantar vitória e enterrar o machado. Até ao próximo (re)encontro.




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