E o que acontece aos líderes do PSD?
Andam aos tiros uns aos outros.
O dr. Menezes também dá alguns.
Com certeza. Digo-o com toda a humildade. Sou tão responsável pela instabilidade interna do PSD como muitos outros, mas menos que alguns. Não sou tão responsável como aqueles que viram as setas ao contrário, que dizem que tiram os líderes à bomba e que ainda vivem na nostalgia do bombismo pré-25 de Abril, da LUAR… Muita da belicosidade do PSD tem a ver com a falta de estabilidade do ponto de vista ideológico, programático e organizativo.
Ainda há dias dizia que Marcelo Rebelo de Sousa devia ir a votos para ver se era tão popular como político, como é como entertainer…
Essas declarações têm que ser vistas estritamente no âmbito do combate político.
Mas também parecem indiciar a necessidade de uma cisão para clarificar de vez o PSD.
Marcelo Rebelo de Sousa é um homem intelectualmente superior, culto, que tem experiência governativa… Não estamos a falar de um destituído. O que acontece é que num partido não podemos passar a vida a clamar por alguém, a pedir por favor para ele um dia ser candidato. Já foi, veio embora, podia voltar? Podia, claro, mas para isso é preciso que o deseje. Que se apresente e não que esteja no centro destas novelas venezuelanas.
O PSD resiste a todas a correntes ideológicas e programáticas que se digladiam no seu interior?
Sim. Há uma massa substancial de militantes e de povo apoiante e votante do PSD que se pode aglutinar à volta de uma matriz comum. E também há quem ficaria de fora, é óbvio. O PSD é um partido especial, que tem a ver com as próprias características do país, que é pobre, com muitas carências. Há três vertentes que aglutinariam o PSD. Primeiro, uma intransigência realista face às circunstâncias actuais do país e do mundo, mas completamente radical na defesa do Estado Social Europeu. No dia em que deixar de ser assim, saio do PSD. Em segundo lugar, devia ser um partido altamente liberal, convicto de que a iniciativa privada é capaz de fazer muito melhor pela economia do que o Estado, ou seja, não ser titubeante quando se discute onde deve estar a PT, a GALP, a REN ou a EDP. Finalmente, o PSD deveria ser tolerante nas políticas de valores e de costumes e não fundamentalista em relação ao aborto, à homossexualidade, enfim, um conjunto de questões que também são politicamente relevantes.
Algum dos actuais candidatos à liderança do PSD lhe dá garantias de que o partido pode seguir o rumo que advoga?
Enquanto líder do PSD defendi o fim das golden shares, defendi o aumento dos poderes presidenciais, o aumento dos poderes e competências do BdP em matéria de regulação e supervisão financeira, o Estado Social. Se há coisa de que não me podem acusar é de não ter propostas claras para o país. Ouço Paulo Rangel falar de ruptura, mas isto é que é romper. A ruptura não é um discurso redondo, com frases grandiloquentes, muito ao estilo da direita mais radical da Europa. Ruptura é coragem de explicar às pessoas que há medidas que mudavam a nossa vida.
O seu candidato é Pedro Passos Coelho.
Ainda não disse quem era o meu candidato. Vou fazê-lo no congresso e acho que o presidente do congresso devia criar um espaço próprio para que os ex-líderes do partido pudessem falar. Não é que sejam mais que os outros militantes, mas menos também não são. Ouvi Paulo Rangel dizer que ser militante do PSD há pouco tempo e ter sido militante do CDS-PP não diminuía a sua candidatura. De facto não. Mas a verdade é que ser militante do partido há 35 anos também não diminui ninguém. Paulo Rangel disse ainda outra coisa: que Durão Barroso tinha vindo da extrema-esquerda, que Agostinho Branquinho também… Só que há aqui uma diferença que o dr. Rangel não referiu. Eles saíram da extrema-esquerda para o PSD aos 18 anos, não foi aos 40. É uma diferença substancial.
Faz sentido este congresso discutir uma alteração estatutária que introduza uma segunda volta nas eleições directas?
Há dois anos defendi que devia haver uma segunda volta. O que me repugna é que os mesmos que recusaram a segunda volta há dois anos, sejam agora os grandes defensores da medida. É preciso ter algum decoro. Quando não há uma maioria absoluta, faz sentido que haja uma segunda volta. Mas já pensava assim antes…




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