Editorial
Mudar a ruptura
por Martim Avillez Figueiredo, Publicado em 13 de Março de 2010
Os candidatos à liderança do PSD vão hoje falar de mudança e de ruptura. Deviam saber que a história apaga o significado das palavras. Ora leia
É provável que os três candidatos à liderança do PSD troquem hoje argumentos com substância. Estarão a ler textos, preparados com calma e cabeça pelas suas equipas. Mas é igualmente de esperar que as palavras "ruptura" e "mudança" apareçam por todo o lado, como pipocas a saltar. Sucede que as pipocas têm quase sempre sabor. Estas palavras não: perderam-no.
C. S. Lewis, esse irlandês com o dom da palavra, escreveria hoje seguramente uma nova versão do seu "Studies in Words" (1960) - a obra-prima onde explica por que razão (e de que forma) as palavras mudam de significado com o tempo. Na época, Lewis escolheu por exemplo a palavra "simples", ou a palavra "livre". Agora concentraria a sua energia em "ruptura" ou "mudança". Por exemplo, "ruptura" já deu origem à palavra "corrupção" - no sentido em que implica um desvio de um código (social, moral, político). Que quer Rangel dizer quando diz "ruptura"? Vai fazer tudo de modo diferente, alterando os códigos políticos que o PSD usa hoje? Vai virar à esquerda ou à direita, será isso? Mudar o nome do partido, as suas regras?
O velho Wittgenstein foi um dia convidado para falar no King's College de Cambridge. Pediram-lhe uma palestra sobre ética e ele incendiou a audiência explicando que não podia fazê-lo - ou melhor, se o fizesse, disse, estaria a falar numa outra língua, usando palavras e expressões incompreensíveis para quem ouvia. Pior: se fosse eficaz a descrever a ética, todos os livros já escritos sobre o assunto se incendiariam por si. Passos Coelho, Rangel e Aguiar-Branco conhecem com certeza todas estas ideias. Poderiam até ter tido acesso aos estudos de Henri Campagnolo, um investigador do Museu do Homem em Paris, que viveu toda a sua vida entre Alcobaça, Lisboa e Paris - e dedicou grande parte do seu esforço antropológico a entender as línguas e civilizações asiáticas (criou mesmo o primeiro dicionário de tétum, língua timorense) e a entender o significado mutável das palavras. Mas preferiram usar palavras cansadas.
Não e difícil pensar nas consequências: quando um termo é usado até à exaustão - como acontece por exemplo com a palavra "revolução" - perde força. É a lei das coisas: quando se repete muito, cansa. A palavra "mudar", por exemplo, serve tanto para lâmpadas como para pneus de automóvel. Que raio: usá-la para dar confiança a um país, a um partido? "Ruptura" não é melhor: hoje assusta. "Revolução", lá nos anos 60, era palavra forte. Essa sim, mudava o mundo. Hoje perdeu esse poder. A história faz isso às palavras.
Portugal precisa de palavras novas - não pela frescura, mas pelo significado que conservem. E não é fácil encontrá-las: os publicitários dedicam horas e horas de trabalho à busca da palavra certa. Os políticos não? Ou seja, primeiro tem de existir conteúdo, depois a palavra que melhor o descreve.
Na política portuguesa, hoje, são as palavras que chegam primeiro - o conteúdo logo se vê. Admirem-se, depois, que as intenções de voto caiam cada vez mais nas sondagens.
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