Congresso PSD
Pedro Passos Coelho. "Como é possível manter um governo em que um primeiro- -ministro mente?"
por Ana Sá Lopes, Publicado em 13 de Março de 2010
Pedro Passos Coelho é o mais bem colocado para suceder a Manuela Ferreira Leite nas directas do dia 26. A menos que algum terramoto surja no congresso que hoje começa em Mafra, os dois anos de oposição interna renderam a Pedro Passos Coelho a imagem de favorito na hora da sucessão
A sede de campanha fica em frente à casa de José Sócrates, na Rua Braancamp. Miguel Relvas, o homem-forte, escolheu--a mais pelo simbolismo que por outra coisa. Chega Ângelo Correia, grande amigo político e colega de trabalho de Pedro Passos Coelho (são ambos administradores da Fomentinvest). Chega Calvão da Silva, histórico motapintista e ex-mandatário de Ferreira Leite em Coimbra. Miguel Relvas não larga o telefone. Chegam sondagens que mostram que o "Pedro" - como ainda lhe chama muito PSD - está quase, quase a chegar ao poder.
O Presidente da República avisou esta semana que não quer crises políticas a breve trecho. Concorda?
Eu penso que ninguém quer... Admito, em nome da clareza, é que a estabilidade não é um fim em si próprio. Se o governo não tomar as medidas que são importantes para combater a crise, se continuarmos a ver apodrecer as condições de exercício político e até o prestígio de órgãos de soberania, como é o caso da justiça, é preferível enfrentar a crise política e vencê-la a deixar o país a abeberar, com medo de enfrentar os problemas.
Se se concluir que o primeiro-ministro mentiu ao Parlamento no caso PT/TVI, se for eleito líder, o PSD apresentará uma moção de censura?
Como seria possível manter um governo em que o primeiro-ministro mente? Em nome de que valores se pediria ao Estado que mantivesse um primeiro- -ministro que mente? Agora, acho que não devemos estar a partir de conclusões que não existem.
A líder do seu partido já concluiu há muito tempo que o primeiro-ministro mentiu sobre o caso PT/TVI...
Eu não sou a líder do meu partido. Não gosto de fazer política a lançar juízos de intenções sobre os outros. Interessa é saber quais são os factos. O que há é a suspeita de que o governo se envolveu onde não se devia ter envolvido, que o Ministério Público protege o primeiro- -ministro. Eu não sei se é assim ou não é. Mas, como é evidente, se se vier a apurar alguma matéria que dê substância a essa suspeita, isso deve ter consequências. O que eu não quero é que Portugal viva em permanência nestas suspeitas. Precisamos de atacar a crise, conter o desemprego e proteger o emprego, precisamos sobretudo de dar confiança às pessoas de que os sacrifícios que vamos fazer vão ter algum significado para o futuro. Enquanto andarmos metidos neste apodrecimento não conseguimos concentrar-nos no essencial.
Com este ou com outro primeiro- -ministro...
Com este ou com outro primeiro-ministro. Na certeza de que, se este governo ou se este primeiro-ministro deixar de ter condições para governar, deve haver recurso a eleições. A legitimidade formal dos governos não está em causa, mas a força política dos governos não é dada só pela legitimidade formal. Num tempo em que vamos ter de desenvolver programas económicas que contêm políticas que são bastante impopulares, um governo que não tenha uma inquestionável força do eleitorado está diminuído.
Está pronto para forçar eleições, com o risco de o país dar um sinal horrível nos mercados internacionais?
Penso que não devemos ter uma visão medíocre das coisas. Em Portugal há muitos anos que pomos os óculos do curto prazo quando queremos resolver problemas importantes. Vamos, com isso, acumulando problemas de médio e longo prazo de que nunca nos livramos. A razão por que existe uma pressão tão grande dos mercados internacionais e das agências de rating é que toda a gente percebeu que o governo apresentou um Orçamento fraco. Tivesse o PSD sido mais exigente com o governo, explicando-lhe que não deixaria passar um Orçamento fraco, e eu tenho dúvidas que o governo não tivesse alterado a sua proposta. O mesmo para o Programa de Estabilidade e Crescimento. Não podemos dizer ao governo que aceitamos qualquer caminho que ele nos proponha. Isso não é um consenso.
O seu plano de privatizações era mais amplo que o do governo...
E é. Era importante que o governo fosse mais longe e explicasse melhor o que quer fazer com elas. A ideia que dá é que o governo vai alienar participações em empresas públicas como quem vende os anéis para arranjar dinheiro. Não percebo porque é que o governo não inclui no lote de privatizações a comunicação social.
A RTP, a RDP, a Lusa?
Com certeza. Não significa que o Estado não possa na mesma definir o que é serviço público. Pode contratualizar com privados.
Mas privatizava mesmo toda a comunicação social pública?
Precisamos de ter um serviço radiofónico e de televisão para a área internacional. Tem de ser produzido por uma empresa pública? Não tem! Porque é que o governo diz que as famílias vão ter menos devoluções nas despesas da saúde e educação quando transfere todos os anos para a RTP quase 400 milhões de euros?
Não vê nenhum valor em o Estado manter órgãos de comunicação social? Isso existe em vários países europeus...
Pelo contrário! Se alguma coisa devemos acrescentar à medida que vamos aprendendo com os erros que cometemos, uma delas tem a ver com a maneira como o Estado deve olhar para a comunicação social. Então andamos preocupados por o governo se ter envolvido numa operação numa empresa onde detém uma golden share que poderia estar a ser utilizada para comprar uma estação de televisão privada e não vemos nenhum problema em que o Estado possa interferir num canal público?
Mas acha que a informação da RTP é manipulada pelo governo?
O meu ponto de vista é de princípio. O Estado não tem de ser dono de meios de comunicação social. Em determinadas circunstâncias, o poder pode ser exercido com correcção e não haver tentações nem interferências, mas pode não ser assim. A verdade é que os governos têm instrumentos, se quiserem, para interferir. Já vi pessoas com responsabilidades de direcção de informação em estações públicas e depois em estações privadas queixarem-se quando estão nas privadas das interferências que possam ter sentido e de repente esquecerem-se da interferência que sentiram quando estiveram em estações públicas!
Está a falar de José Eduardo Moniz...
Estou a falar de casos que são conhecidos. Não temos de delinear a forma como o Estado intervém dependendo das pessoas que em cada momento exercem o poder.
Deixou cair a sua proposta de privatização da Caixa Geral de Depósitos. Fará sentido recuperá-la um dia?
Deixei. Não sei nesta altura responder a essa questão. Julgo não ter avaliado bem a reacção das pessoas, que mostraram intranquilidade perante essa minha ideia. As pessoas percepcionam essa intervenção como reguladora, apesar de não competir à CGD essa intervenção.
Defende a adopção por casais gay?
A homossexualidade ou a heterossexualidade não tem de ser um critério para a adopção. Quando avaliamos as condições em que determinada pessoa deve poder adoptar, o critério não é saber qual é a sua orientação sexual. Deve ser saber se tem ou não tem condições de estabilidade emocional, maturidade, autonomia financeira...
O que pensa desta lei do PS, que proíbe expressamente a adopção?
Julgo até que é inconstitucional.
Como é que fumou um charro e não deu por isso?
Fizeram uma enorme chinfrineira por causa disso! Tinha talvez os meus 16, 17 anos. Estava num grupo de amigos, passaram-me um cigarro, eu não sabia o que era. Fumei, não gostei do sabor. Percebi depois pelos comentários que era qualquer outra coisa. Não fumei enganado, nem estou a desculpar-me! Não tenho nenhum problema em ter fumado! Eu comecei a fumar cigarros em minha casa sem ter pedido autorização a ninguém...
Quando é que isso foi?
O meu pai é pneumologista, tem particular sensibilidade para o tabagismo. Recordo-me de estar no meu quarto a estudar e a fumar, o meu pai ter entrado e ter feito aquele ar decepcionado, do género "então também já andas nisto". Eu disse: "Tem que ser."
Que idade tinha?
Dezasseis anos. Recordo-me que ele me disse: "Isso é uma porcaria. Faz muito mal. Mas tu é que sabes. Não voltaremos a falar nisto." E não voltámos.
Ainda fuma?
Não, deixei de fumar há 11 anos.
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