Congresso PSD
Paulo Rangel. "Não se deve excluir uma maioria absoluta do PSD"
por Maria João Avillez, Publicado em 13 de Março de 2010
Os debates com os adversários não lhe correram bem. Mas Rangel desvaloriza e diz que não quis criar um ambiente de excessiva combatividade com os companheiros de partido. Preferiu discutir ideias e apresentar alternativas para substituir o governo de José Sócrates.
É o mais jovem dos três candidatos (42 anos), é da "casa" há menos tempo que os outros, os debates não lhe correram bem, mas Paulo Rangel não se aflige, Portugal sabe quem ele é, os militantes também. Subentendido: as suas ideias são conhecidas, a experiência parlamentar e governamental também. E a cultura e o dom da política idem.
Estamos a horas do congresso do PSD e sobre si pende uma sombra: os debates não lhe correram bem, coisa que surpreendeu amigos e adversários. Que aconteceu? É melhor à solta, sem contraditório?
Discordo dessa análise. Não podemos confundir os debates do PSD enquanto oposição a concorrer em eleições para o país - como nas europeias, por exemplo - com o debate interno. Nestes, deve respeitar- -se de forma especial os outros candidatos e os militantes que eles representam. Intencionalmente rejeitei uma postura mais combativa ou agressiva, não a julgando recomendável. Julgo que os militantes perceberam que eu não quis criar um clima de combatividade nem de ataque pessoal... Olhe, o mesmo que senti, por exemplo, num ou noutro ponto dos debates em relação a mim.
Acha que os militantes perceberam a sua postura. E as mensagens?
Deixei uma mensagem clara e directa aos militantes. Julgo que entenderam que houve consistência nas propostas feitas, que fundamentei os debates e as intervenções que tive muito mais em ideias do que em avaliação de pessoas ou de currículos. Uma mensagem orientada para a ideia programática e ideológica de um projecto mobilizador.
Partiu para o partido a pensar em Portugal. Quais as suas duas ou três grandes ideias para o país?
Portugal deve ter uma classe média com um poder muito forte, acabando com as grandes diferenças ou grandes assimetrias de hoje. Forte no sentido económico, mas forte sobretudo no sentido de ter a liberdade para fazer escolhas, ao mesmo tempo que se empenha na realização da justiça social. Este deve ser o grande projecto, com duas prioridades essenciais: libertar os portugueses da carga da dívida - das famílias, das empresas, do Estado. Não só é gigantesca como limita, ou mesmo quase anula a autonomia das pessoas. Não têm espaço para respirar nem para levantar a cabeça. A outra prioridade é a mobilidade social. Portugal já chegou a ter uma classe média desenvolta - não era pujante, mas era desenvolta - e hoje ela está francamente em declínio o que cria graves problemas sociais. Julgo que o grande projecto tem de ser o de fortalecer a sociedade. O PSD não é o partido do Estado, do mercado, é o partido da sociedade.
Quais são as suas raízes ideológicas? Dizem-no politicamente conservador e um liberal nos costumes.
Rejeito absolutamente esse rótulo, nunca me considerei um conservador, sou uma pessoa bastante liberal até. Tenho uma visão de matriz humanista aliada a uma componente social forte.
... mas que, doutrinalmente, se chamaria o quê?
De um ponto de vista doutrinal tem algumas raízes naquilo que é uma ideia social--cristã. Por um lado, e sempre em primeiro lugar, a autonomia e a liberdade da pessoa; depois, uma intervenção social forte. Mas que nunca seja passível de ser confundida com o desperdício mas como o fruto de uma profunda reflexão social.
Voltemos ao PSD: onde estão as suas tropas?
Essa ideia de tropas na vida política... Eu não vejo uma lógica militar nisto!
Mas verá uma lógica de apoios. Quais são os seus?
Temos hoje uma candidatura completamente consolidada no terreno...
Semeado nas europeias?
Sim, nas diversas eleições. Temos um enorme apoio de autarcas mas que ultrapassa em muito os presidentes de juntas ou o tecido autárquico. Temos estruturas, temos voz, temos uma notoriedade muito grande. Criaram-se cumplicidades no país inteiro, não só nas europeias, mas também nas legislativas e autárquicas. Fui muito convidado para fazer campanha por todo o país, e fiz. Estamos presentes, a candidatura tem expressão.
Para romper é preciso primeiro unir: conseguirá unir tantas tribos desavindas e que tanto se desprezam entre si?
Não julgo que o problema do PSD seja de conciliação de tribos mas antes de ter - e dar a conhecer - um projecto mobilizador, galvanizador, à volta do qual as pessoas se juntam, mobilizadas por ele. Repare que uma afirmação mais assertiva, mais clara, que pode até surgir como divisora ou separadora de águas, tem muito mais capacidade de unir do que o simples entendimento entre as partes ou a mera celebração de tratados de paz. E tem mais capacidade de unir justamente porque mobiliza e interpela. No fundo, trata-se muito mais de um problema de adesão interior e individual dos militantes... mais que grupos ou tribos.
É uma visão simplista dizer que o PSD está dividido entre bases e elites?
Sim, não tenho qualquer dúvida de que é uma afirmação simplista! Conheço hoje o partido muito melhor do que quando entrei e não tenho dúvidas de que não existe qualquer semelhança com a realidade nessa diferenciação entre elites e bases. Isso não quer dizer que não haja diferentes sensibilidades e até grupos. Há. Mas todos eles têm as suas elites e as suas bases. Até a nível local, nos vários grupos, as há: elites e bases. Por isso discordo, não é bem essa a divisão.
Quando fala de ruptura, de que ruptura se trata?
A ruptura pretende ser um elemento de ligação à tradição do PSD. Com ela, quero significar em primeiro lugar uma ruptura com os 15 anos quase ininterruptos de governação socialista Mas defendo também um corte com a atitude de não galvanizar o país, de não o chamar... Repare que sempre que o PSD afirmou de forma clara e taxativa os seus projectos, venceu. Foi assim no final dos anos 70, com a passagem à democracia civil; foi assim no final dos anos 80, com o fim da colectivização da economia. E por aí fora.
Um dos seus desafios é restabelecer a ligação entre o PSD e o país?
Neste momento, trata-se, como referi acima, de galvanizar ou mobilizar para um projecto no seio do PSD. Depois, tratar-se--á do país, mobilizando os portugueses. Acho que há muitos portugueses disponíveis para servir o seu país e muitas vezes penso nisso e reflicto sobre isso. E até há portugueses disponíveis para fazer alguma renúncia e alguns sacrifícios mas falta-lhes um projecto inspirador. Ora é isso justamente o que o PSD tem de representar e que eu estou disposto a fazer, no caso de ser presidente do PSD.
Então em caso de vitória no PSD, como se propõe obter uma vitória no país? Recorrendo a uma aliança com o CDS? Ou algo até mais abrangente?
Acho que não se deve excluir uma maioria absoluta do PSD. Pelo contrário, deve--se mesmo visá-la, apontar para ela. Julgo, aliás, que se houver um projecto mobilizador como o meu, e dada a insatisfação com a instabilidade e a tensão da situação política actual, uma maioria absoluta é uma meta ao alcance do PSD. De resto, o PSD como partido central deve abrir-se ao centro-direita - independentes e CDS - e ao centro-esquerda, indo por exemplo buscar ou mobilizar personalidades independentes da área socialista, descontentes com quinze anos de estagnação!
E este congresso? Como o antevê?
Acho que será um grande momento de ligação do partido ao país. Pela primeira vez em muitos anos, um congresso vai ser um momento muito forte de atenções, de focos no PSD. Bem aproveitado, pode ser uma boa primeira ligação. O interruptor que de novo ligará o PSD a Portugal.
Por falar em Portugal: que opina ou como analisa o Programa de Estabilidade e Crescimento? Em duas frases?
Notei uma inversão do rumo do governo, mas não levada às consequências a que devia ter sido levada.
Serve de pouco, é isso?
Digamos que é um meio-caminho. Um semi-PEC. Mas uma coisa é certa: o PS recuou em toda a linha relativamente àquilo que foi sempre o seu discurso e os seus objectivos. E recuou especialmente quanto aos seus compromissos eleitorais.
Está a pensar nas bandeiras e nos emblemas da dr.ª Ferreira Leite?
Já o disse várias vezes e nunca hesitei em dize-lo: a dr.ª Ferreira Leite tem a satisfação - um bocado inglória porque é relativa a uma realidade muito má para o país - de lhe ser reconhecida razão nas várias bandeiras que levantou enquanto foi líder do PSD.
Se não ganhar, como vai ser o seu day after? Apanha o avião para Bruxelas?
Sim. Onde terei também intervenção cívica e política, a partir do Parlamento Europeu.
Nesse caso, de que tamanho seria a sua decepção?
Olhe, não sei figurá-la. Mas apesar de não ser capaz de antecipar o que isso seria, há algo que sei: a perda de um projecto mobilizador e galvanizador como o meu, seria uma perda muito grande para o PSD e isso eu sei muito bem. E nesse sentido seria não só uma decepção para mim mas porventura também para muitíssimos outros.
De qualquer maneira, em caso de vitória, esse seu projecto terá de esperar: Cavaco Silva já avisou que não contem com ele para dissoluções a pedido. As legislaturas são para durar.
Ah, julgo ser insuspeito de uma oposição tímida ou complacente para com o PS de Sócrates. Mas tenho sempre dito que o governo deve ser obrigado a assumir as suas responsabilidades, as despesas e o preço de quem está no poder e herda uma situação difícil que ele próprio criou. Só depois de o país ter interiorizado as culpas do PS é que chegará a hora do PSD. Não alinho de todo numa estratégia de antecipação ou precipitação de uma crise política. Oposição dura e inabalável e a análise de cada conjuntura serão os meus critérios. Em cada tempo se verá qual o dever nacional do PSD.
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